Por Marco Severini — Na tessitura delicada da geopolítica do Oriente Médio, declarações recentes dos Estados Unidos e de Israel sobre o programa iraniano reacenderam o debate sobre a presença e a lógica do poder nuclear na região. Enquanto Teerã é acusado de ter estado próximo de desenvolver armas atômicas, o próprio Estado de Israel é amplamente considerado uma potência nuclear não declarada — uma posição que funciona como um movimento estratégico no tabuleiro diplomático.
Fontes especializadas concordam que Israel adquiriu capacidades atômicas já nas décadas de 1960. No entanto, o país mantém desde então uma política deliberada de ambiguidade nuclear, não confirmando nem negando a posse de armas nem publicando doutrinas de emprego. Essa opacidade concede a Tel Aviv os benefícios da dissuasão sem assumir custos formais, como inspeções internacionais, criando assim um equilíbrio de incerteza intencional.
O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), referência para estimativas confiáveis na ausência de dados oficiais, inclui Israel entre os nove Estados com capacidade nuclear e aponta que, em 2024, estes países continuaram a modernizar seus arsenais. O relatório do SIPRI reforça que sua avaliação relativa a Israel contém “estimativas com grau considerável de incerteza” devido à política de opacidade adotada por Jerusalém.
Segundo o SIPRI, a capacidade nuclear israelense foi estimada em cerca de 90 ogivas em janeiro de 2025. O instituto registra também um processo contínuo de modernização: em 2024, Israel teria testado um sistema de propulsão nuclear possivelmente ligado à família de mísseis Jericho, e prosseguido com atualizações no complexo de produção de plutônio no Negev Nuclear Research Center, junto a Dimona.
Quanto aos vetores, o país possuiria aproximadamente 125 aeronaves de combate potencialmente nucleares (100 F-16I e 25 F-15), mas especialistas do SIPRI estimam que apenas cerca de 50 aviões teriam papel direto em um ataque nuclear — nomeadamente 25 F-16I e todos os 25 F-15. Permanece incerta a adaptação dos F-15 a capacidades nucleares equivalentes às adotadas pelos Estados Unidos.
No componente balístico, o Jericho III vem substituindo o Jericho II e pode já ter completado seu processo de renovação; há indicações de desenvolvimento de uma variante de longo alcance dotada de novo motor de combustível sólido. No mar, Israel opera cinco submarinos da classe Dolphin, movidos a propulsão diesel-elétrica, que segundo estimativas poderiam transportar até 20 mísseis com capacidade potencialmente nuclear — um eixo complementar à tríade de meios de dissuasão.
Do ponto de vista estratégico, a política israelense de ambiguidade funciona como um jogo posicional: manter intactos os alicerces da dissuasão sem cristalizar obrigações formais. Essa estratégia, contudo, acrescenta camadas de opacidade que desafiam analistas e aumentam a tensão regional — sobretudo quando combinada com denúncias sobre o programa iraniano. Em suma, existe um claro redesenho da tectônica de poder nuclear na região, onde declarações públicas e programas silenciosos se movem como peças num tabuleiro que exige leitura cuidadosa e prudente.






















