Vladimir Putin não tem, por enquanto, previsão de contato telefônico com Donald Trump para tratar da operação no Irã. A informação foi confirmada pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que afirmou: “Por ora não está prevista uma chamada com Trump, não consta na agenda do presidente”.
Ao mesmo tempo, o Kremlin sustenta que Putin tem adotado uma postura de tentativa de desescalada no Medio Oriente. Segundo Peskov, o presidente russo “faz e fará todos os esforços para contribuir, ao menos, para uma ligeira distensão” e mantém canais com os países da região. A mensagem transmitida a Teerã incluiria “profunda preocupação” pelos ataques às infraestruturas iranianas, aproveitando o diálogo vigente entre Moscou e a liderança iraniana.
Num outro eixo diplomático, Marko Mihkelson, presidente da comissão de Relações Exteriores do Parlamento da Estónia, afirmou que os Estados Unidos precisam reconhecer que a neutralidade perante a guerra russo-ucraniana é insustentável. Em seu apelo, Mihkelson defende que, ao fornecer o máximo de apoio militar e econômico à Ucrânia e pressionar a Rússia a renunciar a objetivos estratégicos, Washington aumentaria suas possibilidades de sucesso também no Medio Oriente.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, expressou preocupação de que a operação americana contra o Irã possa provocar um “desaceleração” nas entregas de mísseis financiados com fundos europeus no âmbito do programa Purl, tal como ocorreu durante a guerra dos 12 dias de 2025. Zelensky disse não ver, até então, cancelamento do próximo ciclo de negociações — previsto para 5 ou 6 deste mês, possivelmente fora de Abu Dhabi —, mas admitiu o risco de atraso.
Em entrevista ao Corriere della Sera, Zelensky considerou que atacar alvos militares iranianos foi “uma boa decisão”. Ele sublinhou que o Irã produziu grande parte das armas entregues à Rússia, especialmente drones e mísseis, embora, na avaliação pública do presidente ucraniano, essa capacidade agora possa estar fragilizada, com eventuais repercussões na cadeia de suprimentos que sustentam o conflito no leste europeu.
Zelensky também afirmou com firmeza: “Eu nunca deixarei o Donbass e os 200 mil ucranianos que lá vivem”. Ressaltou que Putin perdeu a ofensiva de inverno, lembrando ataques a centrais elétricas durante o frio intenso, uma estratégia destinada a dividir a sociedade e forçar a população contra as forças armadas — manobra que, segundo o presidente ucraniano, fracassou.
Na análise que ofereço, observamos um movimento decisivo no tabuleiro que conecta dois teatros: o do Medio Oriente e o da Ucrânia. Distensões públicas e recados diplomáticos a Teerã coexistem com o risco real de ruptura logística no fornecimento de armamentos. Esse entrelaçamento demonstra como os alicerces da diplomacia contemporânea são frágeis: um choque no Golfo pode provocar um redesenho de fronteiras invisíveis na esteira de material bélico e influência estratégica.
Para os estrategistas, a leitura é clara: manter linhas de suprimento abertas e previsíveis é tão vital quanto consolidar alianças. A reciprocidade entre iniciativas no Medio Oriente e no leste europeu converte cada movimento numa jogada que deve ser calculada com precisão, pois o custo de um erro é alto — tanto para civis quanto para a estabilidade regional.






















