Marco Severini — Um movimento decisivo no tabuleiro energético global abalou as praças financeiras na manhã de 2 de março: o ataque atribuído aos Estados Unidos e a Israel contra alvos no Irã provocou uma onda imediata de choques nas cotações de energia e uma reação em cadeia sobre os preços dos combustíveis. Em termos de mercados, trata‑se de uma deslocação tectônica, com perdas acumuladas superiores a 300 bilhões de euros nas bolsas europeias e sinais claros de aceleração da inflação de custos para empresas e consumidores.
O mais eloquente dos sinais foi o salto do preço do gás nos centros de referência: o mercado de Amsterdam registrou um aumento diário de 39%, fechando em 44,5 euros por MWh, com pico intradiário de 49 euros — níveis que não se viam desde outubro de 2022. Esse surto foi imediatamente reforçado pelo anúncio da QatarEnergy sobre a interrupção temporária da produção de gás natural liquefeito (GNL) no complexo de Ras Laffan, após ataques que atingiram instalações estratégicas.
Os reflexos no petróleo foram igualmente expressivos: em Nova York, os preços subiram em média 5%, tocando a casa dos 70 dólares por barril e alcançando máximas iniciais de 75 dólares; o Brent europeu aproximou‑se de 80 dólares por barril. Essa combinação — gás em alta brusca e petróleo pressionado — desenha um quadro preocupante para o custo logístico e para a cadeia de combustíveis.
Na ponta final da cadeia, os preços dos carburantes reagiram com aumentos nos preços de referência praticados pelas grandes marcas. A leitura da Staffetta Quotidiana indicou que o diesel atingiu o patamar mais elevado desde 28 de fevereiro de 2025: o diesel em regime self‑service foi cotado em €1,728 por litro (+0,008) e o diesel servido em €1,865 por litro (+0,007). Segundo a mesma fonte, estes movimentos representam “apenas o início” — ou seja, os efeitos nas bombas poderão tornar‑se mais nítidos a partir de 3 de março, na medida em que as cotações do petróleo e do GNL se infiltrarem nos preços domésticos.
O alerta partiu também dos setores produtivos e do próprio Governo. Aurelio Regina, delegado da presidência da Confindustria para a Energia, advertiu para uma nova fase de elevada volatilidade nos preços da energia enquanto persistirem as tensões, sublinhando a necessidade imperiosa de colocar a competitividade e a segurança energética no centro das respostas e de aprovar em caráter de urgência um decreto‑energia.
Do ponto de vista estratégico, o ministro da Defesa, Guido Crosetto, recordou o papel crítico do Estreito de Hormuz: por ali passa cerca de 20% do petróleo mundial — entre 17 e 20 milhões de barris por dia — e mais de 30% do GNL. Crosetto advertiu que mesmo uma redução parcial do fluxo, ou uma perceção de risco, é suficiente para produzir um impacto imediato sobre os preços, com aumentos significativos nos custos de transporte (estimados entre 30% e 40%).
Como analista que privilegia a visão do tabuleiro, destaco dois vetores que decidirão os próximos movimentos: primeiro, a duração e a intensidade da escalada geopolítica no Golfo e suas consequências físicas sobre a produção e o tráfego marítimo; segundo, a capacidade de resposta das políticas públicas para mitigar choques de curto prazo sem sacrificar a estabilidade macroeconômica. Em termos práticos, empresas e consumidores estarão expostos a custos mais elevados enquanto os alicerces da diplomacia permanecerem frágeis.
O episódio reforça a lição clássica da cartografia das relações internacionais: linhas invisíveis — rotas de trânsito, infraestruturas energéticas, contratos de fornecimento — podem redesenhar, num curto espaço de tempo, o mapa das prioridades nacionais. A gestão cuidadosa desses riscos exigirá, portanto, movimentos de grande precisão e coordenação entre atores privados e estatais, numa sequência que lembra uma partida de xadrez em que um lance agressivo redesenha a dinâmica do centro do tabuleiro.






















