Sou Alessandro Vittorio Romano e, enquanto observo as estações que desenham a paisagem italiana, reconheço também os ritmos mais íntimos do corpo coletivo. A obesidade — definida pela OMS como uma “pandemia silenciosa” que atinge mais de um bilhão de pessoas no mundo — revela no nosso país números que soam como um inverno prolongado sobre hábitos e saúde: cerca de 6 milhões de italianos vivem com obesidade (aproximadamente 12% da população) e quase a metade dos adultos (47%) está em sovrappeso.
O peso em excesso não poupa os mais jovens: no cenário nacional, 1 em cada 3 crianças convive com excesso de peso. Apesar de 3 em cada 4 cidadãos reconhecerem que o sobrepeso é um sério risco à saúde, apenas 2,7% das pessoas se declara obesa — um fosso preocupante entre a consciência coletiva e a percepção individual.
Tratar a obesidade exige um olhar longo e holístico. Os especialistas lembram que a aderência aos programas de gestão do peso é uma das maiores dificuldades: metade dos pacientes abandona o tratamento no primeiro ano, segundo levantamento publicado em Obesity Reviews. “Se hoje a obesidade é reconhecida como uma patologia crônica, então devemos enfrentá-la com uma lógica de longo período”, observa a endocrinologista Mikiko Watanabe, docente da Sapienza Università di Roma. Ela nos convida a pensar numa trajetória clínica que precisa de estabilidade, ajustes e instrumentos diferentes em fases distintas — como a terra que exige cuidados diversos ao longo das estações.
Não podemos separar o corpo do campo emocional. Uma investigação sistemática da Sociedade Italiana de Neuropsicofarmacologia (SINPF), realizada em seis regiões, mostra que 17% dos pacientes acompanhados pelos Serviços de Saúde Mental apresentam obesidade, contra cerca de 10% na população geral. O quadro é ainda mais nítido entre os jovens de 18 a 34 anos: 13,7% entre os acompanhados pelos serviços de saúde mental, frente a 5,5% da população — um risco quase triplicado. Como sublinham Claudio Mencacci e Matteo Balestrieri, presidentes da SINPF, quem vive com transtornos depressivos, bipolares ou esquizofrenia tem risco dobrado de sobrepeso e obesidade em relação à população em geral.
No campo pediátrico há sinais de uma resposta organizada. O hospital pediátrico Bambino Gesù, em Roma, estruturou um percurso multidisciplinar para crianças entre 6 e 11 anos que busca “recalibrar” as vias neurais do metabolismo, corrigindo disfunções de modo duradouro. O programa integra educação alimentar, atividade física estruturada, promoção de estilos de vida saudáveis e o envolvimento ativo dos pais — um mosaico de intervenções que visa transformar o ambiente cotidiano da criança, como uma pequena colheita de hábitos que dará frutos ao longo da vida.
Ao pensar em saúde pública, é útil imaginar o corpo e a cidade como paisagens que respiram: o desafio da obesidade pede políticas que atuem sobre solo (alimentação), clima (condições sociais) e semente (educação e apoio psicológico). Em vez de gestos isolados, precisamos de uma colheita de práticas sustentáveis, de percursos terapêuticos de longo prazo e de maior suporte para quem vive com sofrimento psíquico. Só assim a Itália poderá sentir o despertar de uma nova estação para a saúde coletiva.
Enquanto a Giornata mondiale del 4 marzo se aproxima, a chamada é clara: transformar consciência em ação, percepção em cuidado e caminhos curtos em trajetórias duradouras. A paisagem da saúde muda aos poucos — e cabe a nós cultivar, com paciência e sensibilidade, as raízes do bem-estar.






















