Por Aurora Bellini — Um novo estudo coordenado pela Universidade de Pádua revela que a acidificação dos oceanos, consequência direta das mudanças climáticas, não põe em risco apenas a vida marinha: ela também acelera o desgaste do patrimônio cultural subaquático europeu, com impactos que podem ser irreversíveis nas próximas décadas e séculos.
A pesquisa — liderada pelo pesquisador Luigi Germinario — avaliou a velocidade com que materiais históricos, especialmente pedras e artefatos lapídeos, se deterioram por dissolução química e por degradação biológica em ambientes marinhos. Em seguida, os cientistas integraram esses resultados a grandes modelos climáticos para projetar cenários futuros.
Segundo o estudo, se no período pré-industrial o desgaste da pedra era praticamente marginal e hoje se mantém relativamente contido em muitas áreas, o aumento contínuo das emissões de gases de efeito estufa pode desencadear um crescimento exponencial nas taxas de degradação. Em termos práticos, estruturas arqueológicas submersas podem perder detalhes, resistência e significado histórico a um ritmo muito superior ao previsto até então — um verdadeiro apagamento lento de capítulos do passado.
Germinario declarou à Espresso Italia que os efeitos serão condicionados tanto pelas propriedades intrínsecas dos materiais quanto pelas dinâmicas da biocolonização — isto é, o crescimento e a ação de microrganismos sobre as superfícies submersas — que tendem a mudar com o pH e outras condições químicas da água.
Como laboratório natural, a equipe trabalhou nas proximidades da Ilha de Ischia, no mar Mediterrâneo, onde respiradouros vulcânicos no leito marinho libertam CO₂ a temperatura ambiente. Essas áreas permitem reproduzir, in loco, condições previstas para as próximas décadas e até extremos futuros de acidificação.
Em mergulhos de campo, pesquisadores submergiram painéis com amostras de diferentes materiais lapídeos típicos de sítios arqueológicos. Os painéis foram posicionados em pontos variados ao redor dos respiradouros, expondo-os a um amplo espectro de níveis de pH. Em laboratório, um profilômetro óptico de alta resolução foi usado para criar modelos tridimensionais das superfícies, revelando medidas precisas de dissolução e erosão.
“Isso nos permite simular o que poderia ocorrer a um artefato de pedra em um sítio submerso, hoje e nas próximas décadas”, explicou Germinario à Espresso Italia. Os resultados alarmantes indicam que políticas de conservação e estratégias de adaptação serão mais urgentes do que nunca para proteger o legado cultural sob as águas.
Além do apelo científico, há um apelo ético e patrimonial: sítios arqueológicos subaquáticos são pilares da identidade coletiva e reservatórios de memórias que não podem ser simplesmente deslocados ou reproduzidos. Proteger esses testemunhos exige tanto ações imediatas de mitigação das emissões quanto planos de conservação inovadores que considerem cenários químicos mutáveis.
O estudo, publicado na revista Communications Earth & Environment, combina observação de campo, experimentação controlada e modelagem climática para lançar uma luz sobre um problema que vem sendo pouco visível, mas de consequências profundas. É um convite para iluminarmos novos caminhos: semear políticas que preservem não só a vida marinha, mas também as marcas materiais do passado humano, antes que a maré de mudanças apague esses sinais.
O desafio está colocado: conservar o patrimônio cultural subaquático enquanto se cultiva um futuro de emissões mais baixas. As respostas exigem cooperação científica, vontade política e estratégias de adaptação que sejam tão resilientes quanto a história que buscamos proteger.






















