Por Chiara Lombardi — Em um cenário onde o entretenimento funciona como espelho do nosso tempo, o Sanremo mais recente deixou a sensação de um roteiro que perdeu o foco. A edição ficou marcada por uma combinação desconfortável: menos audiência e menos qualidade, uma equação que provoca a pergunta inevitável — esteve o problema no próprio festival ou em algo externo, como a intromissão de um formato que lembra mais o espectáculo televisivo do que a celebração musical?
Dois nomes surgem como protagonistas dessa narrativa, talvez três. O primeiro é Carlo Conti, que, diante de perguntas sobre convites controversos, defendeu sua direção artística com veemência. Reproduzindo o teor da sua resposta, ele preferiu que se diga que não sabe exercer seu ofício do que admitir pressões externas pelo convite a Andrea Pucci. É uma declaração que soa como defesa de fronteira, mas também alimenta a reflexão sobre responsabilidade criativa: quando o apresentador vira também guardião do projeto, até que ponto isso protege ou empobrece a experiência do público?
O segundo protagonista é o regista Maurizio Pagnussat. Em tempos de inteligência artificial capaz de prever enquadramentos, chamou atenção a impressão de uma regia hesitante, permeada por refos e cortes discutíveis. Na noite dos duetos, por exemplo, o beijo entre Levante e Gaia praticamente desapareceu do ecrã: as câmeras evitaram captá-lo. A defesa do regista foi direta e prosaica: não foi censura, apenas uma distração. Uma lapsus tão humano quanto revelador, que nos faz pensar se a supervisão técnica e a ideia estética estavam alinhadas com o que o público esperava.
Há ainda quem, à maneira de um crítico político, veja um plano por trás das distrações. Giuliano Ferrara sugeriu que a normalização do festival poderia passar por uma estratégia de mesmice, uma forma de domesticar a audiência tornando o evento previsível e, por isso, menos perigoso. Em outras palavras, transformar o palco num lugar seguro demais, onde a emoção cede lugar a uma rotina sem sobressaltos.
O resultado prático da edição foi paradoxal. Ao contrário da estratégia perfeita, que exigiria menos público e mais qualidade, o que tivemos foi um autogol: menos espectadores e menos brilho artístico. Figuras que deveriam emergir como polas de personalidade ficaram apagadas, e a sensação predominante é a de um festival onde nada de decisivo aconteceu. Nesse balanço, Laura Pausini apareceu fazendo um papel que parecia não lhe pertencer por inteiro. Curiosamente, venceu o neomelodico Sal Da Vinci e já se comenta que Stefano De Martino ficará com a condução da próxima edição — elementos que deixam no ar a pergunta crucial.
Ao final, a pergunta retórica permanece como um eco cultural: estávamos vendo o verdadeiro Sanremo ou uma versão televisiva do Castello delle Cerimonie? Mais que medir audiência, o que importa é entender o roteiro oculto da sociedade que o festival reflete. E neste momento, o espelho devolve uma imagem embaçada.






















