Por Stella Ferrari — A recente escalada do conflito no Oriente Médio, desencadeada por ataques dos EUA e de Israel com o objetivo declarado de degradar as capacidades misilísticas do Irã, frenar a reconstrução do programa nuclear e aumentar a pressão sobre o regime, atuou como um choque lateral no motor da economia global. Em Piazza Affari a resposta foi imediata: praticamente todos os setores operaram no vermelho, exceto os papéis ligados à defesa e à energia, que funcionaram como um refúgio tático.
Os analistas apontam para um risco direto sobre o fornecimento de hidrocarbonetos. O tráfego de petroleiros pelo Estreito de Hormuz está parcialmente interrompido, com armadores e traders reduzindo a atividade por receio de ataques. Trata-se de um ponto nevrálgico para a economia global — cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito percorre ali diariamente — e qualquer paralisação prolongada pode gerar uma onda de choque inflacionária e de oferta.
Relatórios do banco Barclays ressaltam que os mercados, embora tenham em parte precificado uma escalada, ainda exibem pouca margem de resposta a um choque dessa natureza, sobretudo fora dos EUA, onde índices estavam próximos de máximas. A combinação entre a intensidade da retaliação iraniana, o desfecho incerto do conflito e a imprevisibilidade na sucessão após a morte de líderes como Khamenei cria um cenário em que os investidores tendem a operar de forma defensiva no curto prazo. Os riscos apontados incluem disrupções energéticas, impacto no transporte marítimo no Estreito de Hormuz, além de potenciais efeitos sobre aviação e turismo.
Em Milão, a nódoa vermelha predominou. Entre os destaques positivos, empresas do setor militar e petrolíferas avançaram: Leonardo subiu 3,8% (impulsionada também por uma encomenda de 1 bilhão de libras do governo britânico para uma nova frota de helicópteros militares), Fincantieri +2,01%. No setor de energia, Eni registrou +2,03% e Italgas +1,37%, acompanhando o rally do preço do petróleo.
Por outro lado, o temor por uma desaceleração econômica global e pela aversão ao risco pressionou industriais e o setor financeiro. Stellantis caiu 4,74%, enquanto bancos recuaram: Bper -3,66%, Unicredit -2,72%, Intesa Sanpaolo -3,27%, BMPS -2,95% e Mediobanca -3,55%. Seguradoras e bens de luxo também sentiram a maré baixa, com Generali -2,46%, Unipol -3,64%, Moncler -2,6% e Cucinelli -3,57%.
No tabuleiro político-econômico doméstico, o ministro das Relações Exteriores Antonio Tajani e o ministro do Ambiente e da Segurança Energética Gilberto Pichetto convocaram reunião com associações setoriais e empresas para atualizar sobre os desdobramentos da crise e avaliar impactos econômicos, inclusive sobre tarifas e cadeias de fornecimento. O ministro Pichetto destacou em particular um aumento de 25% no mercado de gás, sinal claro de como a tensão se transmite à matriz energética e pressiona custos industriais e domésticos.
Como estrategista, enxergo neste momento uma necessária recalibragem do portfólio e das políticas públicas — uma calibragem fina, quase de engenharia, entre proteger a atividade e evitar que medidas de curto prazo atuem como freios fiscais que comprometam a recuperação. A vigilância sobre preços de energia, logística no Estreito de Hormuz e o comportamento dos títulos defensivos será a métrica-chave nos próximos dias. Em mercados de alta frequência, é preciso manter a tração do capital sem perder de vista a contenção de riscos sistêmicos.
O quadro é fluido e exige respostas rápidas, porém calibradas: gestão de crise em velocidade de alta performance, com a elegância técnica de quem sabe operar num motor complexo. Fatores geopolíticos continuam a ditar o ritmo — e a próxima curva pode exigir mudanças táticas significativas.





















