Por Stella Ferrari — Em Roma, a palavra consenso voltou a funcionar como catalisador de uma mobilização social de escala: mais de 10 mil pessoas caminharam da Piazza della Repubblica até a Piazza San Giovanni para exigir a retirada das alterações introduzidas pelo Ddl Bongiorno e o retorno ao texto que coloca o consenso no centro da definição de violenza sessuale.
Sob os estandartes com os lemas ‘Senza consenso è stupro’ e ‘Senza consenso è sempre violenza’, coletivos feministas, centros antiviolência e siglas sindicais tornaram explícita a recusa em aceitar uma mudança de paradigma que substitui o enfoque no consenso pela noção de dissenso. O ponto de atrito é técnico e simbólico: a presidente da Comissão Giustizia do Senado, Giulia Bongiorno, defendeu a revisão dizendo que a alteração visa valorizar a vontade da mulher sem alterar as dinâmicas processuais — argumento rebatido pelas organizações presentes.
Teresa Manente, responsável pelo escritório jurídico de Differenza Donna, afirmou com firmeza que ‘não aceitaremos a negação da nossa liberdade de determinar-nos e escolher sobre nossos corpos’. Na visão das organizações, a exigência de que a mulher comprove o dissenso equivale a uma regressão legislativa de décadas, com o ônus da prova deslocado para as vítimas.
O secretário da CGIL, Maurizio Landini, presente na manifestação, descreveu o momento como um retrocesso cultural que pretende transformar a vítima em responsável por demonstrar um não. ‘Esta é uma praça pela liberdade e pelos direitos — queremos barrar uma regressão cultural em curso’, disse Landini, destacando que a mudança legislativa representa um perigoso recuo.
Na concentração havia delegações da Amnesty International, CGIL, FIOM e Uil e Cobas. Cartazes ecoavam slogans diretos: ‘Chi tace non acconsente’ e ‘Ddl Bongiorno, per l’uomo che non deve chiedere mai’, além de mensagens que questionavam a razão de prazer se o ato não é compartilhado.
Do ponto de vista político, a secretária do PD, Elly Schlein, que participava de um evento em Milão, reafirmou que o texto proposto pela senadora Bongiorno é inaceitável. ‘Devia-se legislar sobre o consenso e não eliminá-lo. Melhor não aprovar do que aprovar uma lei que piora a condição de mulheres e meninas’, declarou.
Como analista, enxergo esta disputa legislativa como uma questão de desenho de políticas públicas e calibragem de normas: tocar no núcleo do conceito de consenso é como mexer no motor da confiança social; a mudança imperfecta das peças pode reduzir a performance do sistema de proteção às vítimas. A manifestação em Roma evidencia que a sociedade civil exige que os freios fiscais e regulatórios não sejam aplicados às liberdades civis.
O movimento convoca uma reflexão ampla sobre cultura, direito e responsabilidade pública — uma chamada à manutenção de um marco jurídico que proteja autonomia e dignidade sem transferir ao vulnerável o peso das provas.






















