Por Marco Severini – Espresso Italia
Nos últimos dezoito meses, a posição internacional de Putin tem sofrido perdas significativas no tabuleiro geopolítico. Depois da queda de Assad na Síria e da captura de Maduro na Venezuela, a morte confirmada do supremo líder iraniano, Khamenei, marca mais uma ruptura no núcleo de aliados que sustentava a projeção de poder da Rússia enquanto o país permanece atolado na guerra da Ucrânia.
Teerã tem sido, desde o início da ofensiva russa em território ucraniano, um dos parceiros mais próximos de Moscou. A relação bilateral incluiu elogios mútuos e acordos de cooperação, culminando, em 2025, na assinatura de um tratado de parceria estratégica que previu, inclusive, incremento de laços militares. No entanto, diante da escalada de ataques aéreos atribuídos a Estados Unidos e Israel — que resultaram na morte do líder iraniano — o Kremlin assistiu, impotente para muitos observadores, ao esvaziamento de uma peça-chave de sua rede de aliados.
Oficialmente, Moscou reagiu com versões diplomáticas: Vladimir Putin enviou uma mensagem de condolências ao novo presidente do parlamento iraniano, Massoud Pezeshkian, e classificou Khamenei como “um estadista excecional”, denunciando o ato como uma violação cínica das normas da moralidade humana e do direito internacional. O Ministério das Relações Exteriores russo condenou, igualmente, os “assassinatos políticos” de líderes de Estados soberanos.
Contudo, no plano prático, não houve anúncio de assistência militar russa a Teerã. No centro da atual trama diplomática, coube ao ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, telefonar ao seu homólogo russo, Serguei Lavrov. Lavrov, por sua vez, condenou o ataque e prometeu que a Rússia está disponível para “facilitar a busca de soluções pacíficas baseadas no direito internacional, no respeito mútuo e no equilíbrio de interesses” — uma linguagem protocolar que evita compromissos tangíveis de apoio militar.
As perdas são mais amplas do que símbolos: em janeiro, o governo dos Estados Unidos liderado por Donald Trump ordenou uma operação que culminou na captura de Maduro, e, no fim de 2024, o colapso do regime de Assad abriu espaço para o reaproachamento de Washington com as novas autoridades sírias. Como bem observou o analista do Carnegie Center Aleksander Baunov, em redes sociais, por duas vezes em poucos meses Putin falhou em exercer o papel de salvador de ditadores aliados — e, ironicamente, o agente dessas falhas aparece como seu antigo interlocutor: Trump.
Há, ainda, leituras internas na Rússia sobre efeitos econômicos de curto prazo. O parlamentar Anatoly Wasserman aventou, em entrevista ao Moskovsky Komsomolets, que um conflito ampliado no Irã poderia elevar preços do petróleo, beneficiando economicamente Moscou no curtíssimo prazo. Mas essa hipótese revela apenas um movimento tático num momento em que os alicerces da diplomacia russa mostram-se frágeis, e o redemoinho militar e diplomático reconfigura eixos de influência.
Em termos estratégicos, a sucessão de perdas sugere um redesenho de fronteiras invisíveis: a capacidade da Rússia de projetar poder por meio de aliados locais foi questionada, enquanto atores externos crescem em iniciativa e audácia. Para Moscou, o desafio imediato é recuperar agency no palco internacional — uma tarefa que exige mais do que proclamações calorosas, mas movimentos de xadrez bem calculados para restaurar credibilidade e reconstruir corredores de influência.
Em suma, a saída de cena de Khamenei é mais do que a perda de um aliado; é um ponto de inflexão na tectônica de poder regional que impõe a Putin revisar sua cartografia estratégica e suas jogadas futuras.






















