Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma abrupta, um dos vetores centrais da tectônica de poder iraniana, a mídia estatal apresentou Ahmad Vahidi como o novo comandante do Corpo das Guardas da Revolução Islâmica (Pasdaran / IRGC). Trata‑se de uma nomeação que não é apenas pessoal, mas estrutural: substitui o falecido vice e comandante de longa data Mohammad Pakpour, e reforça uma linha de comando marcada por métodos rigorosos e pela centralidade da segurança interna.
Origem: nascido em Shiraz, Vahidi sobe ao posto depois de ter sido vice de Pakpour. É figura conhecida nos mapas de influência da República Islâmica: foi ministro da Defesa no governo de Mahmoud Ahmadinejad e ministro do Interior durante a presidência de Ebrahim Raisi. Sua trajetória institucional consolidou‑o como operador principal dos alicerces da ordem doméstica, com papel direto na supervisão da Polícia Nacional Iraniana (LEF), descrita pelo Departamento do Tesouro dos EUA como “um dos principais aparatos de segurança” para manutenção da estabilidade interna.
O perfil público de Vahidi é de linha dura. Sobre ele recaem sanções americanas por seu papel na repressão às manifestações — incluindo o movimento “Mulher, Vida, Liberdade” de 2020 — e há relatos frequentes de advertências e ameaças a manifestantes, notadamente mulheres que desafiaram as regras do uso do hijabe. Em termos de reputação internacional, Vahidi também figura na lista de procurados da Interpol desde 2007, por solicitação da Argentina, em razão de sua suposta ligação com o atentado de 1994 ao centro judaico AMIA em Buenos Aires, ataque que matou 85 pessoas. O regime iraniano negou envolvimento.
Uma leitura histórica do percurso de Vahidi remete ainda a episódios de maior escala, como o escândalo Iran‑Contra nos anos 1980, em que, segundo análises de especialistas como a jornalista Kim Ghattas, elementos do regime tiveram papeis controversos na complexa teia de contrabandos de armamentos e financiamentos. Na cartografia das relações externas, Vahidi aparece como figura de continuidade com operadores que privilegiavam ação direta e infiltração, em vez de diplomacia pública.
O fato de a nomeação ter sido anunciada em um momento em que, segundo relatos de mídia como Radio Farda, há incertezas sobre quem efetivamente determinou a escolha — dado que a figura da Guia Suprema, Ali Khamenei, e o chefe do Estado‑Maior, Ahmad Mousavi, teriam sido atingidos em ataques recentes — adiciona ambiguidade ao quadro. Em termos estratégicos, é como mover uma peça pesada num tabuleiro onde o rei está ameaçado: o deslocamento estabiliza certas frentes, mas revela fragilidades nos alicerces da cadeia de comando.
Vahidi também foi predecessor de Qassem Soleimani na liderança da Força Quds, unidade de elite dos Pasdaran. A morte de Soleimani em 2020, por ordem do presidente Donald Trump, foi um ponto de inflexão na política externa iraniana e no modo como o país organiza suas operações externas. A ascensão de Vahidi sinaliza um retorno a líderes com histórico de linha dura e experiência tanto na segurança interna quanto em operações de influência regional.
Analistas no terreno, como Mohammad Ali Shabani, fizeram comentários contundentes, qualificando Vahidi de “brutal” e sugerindo que, em comparação, comandantes como Pakpour e Salami pareciam menos implacáveis. Esse contraste não é apenas retórico: reflete uma possível mudança tática na gestão da ordem interna e na projeção do poder dos Pasdaran.
Do ponto de vista da estabilidade regional, a nomeação de Ahmad Vahidi é um movimento decisivo no tabuleiro. Não se trata apenas de substituir uma peça; trata‑se de recalibrar a capacidade coercitiva de um Estado que equilibra sua política interna com estratégias de influência externa. Em curto prazo, espere uma ênfase renovada na segurança doméstica e uma postura menos conciliatória frente a dissidências. Em médio prazo, o novo comando poderá redesenhar linhas de ação externas, alinhando a Força Quds e outros centros de poder sob uma lógica mais centralizada e vigorosa.
Enquanto observadores internacionais buscam pistas sobre quem de fato move as peças por trás do trono iraniano, a ascensão de Vahidi é o tipo de movimento que revela tanto controle quanto nervosismo: um comando que pretende recompor defesas em profundidade, mas que também expõe as fragilidades dos alicerces que sustentam a ordem vigente.






















