Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma abrupta, parte do xadrez estratégico do Oriente Médio, o Irã confirmou a perda de vários nomes de relevo entre seus comandos militares e de inteligência após ataques aéreos atribuídos a Estados Unidos e Israel. A sucessão de mortes atinge o que restava dos alicerces de comando do regime e sinaliza um abalo significativo na coordenação entre as forças regulares e os Guardiões da Revolução.
O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou em entrevista à Fox News que “48 comandantes iranianos foram mortos em um só golpe” — declaração que, verdadeira em sua extensão ou exagerada em números, sublinha a intenção de projetar um resultado decisivo e punitivo do ataque. Independente da contagem precisa, o conjunto de baixas inclui figuras cujo desaparecimento represents um vazio estratégico difícil de preencher rapidamente.
Entre os nomes confirmados consta Ali Shamkhani, secretário do Conselho de Defesa e conselheiro próximo do líder supremo, Ali Khamenei. Shamkhani, um almirante de carreira, acumulou ao longo de décadas cargos no coração da arquitetura militar iraniana: comando de áreas navais, ministérios e, mais recentemente, a secretaria do principal fórum de decisão sobre segurança do país. Sua experiência operacional e política o tornava um elo essencial entre diferentes polos de poder em Teerã.
Outra perda sentida é a de Abdolrahim Mousavi, de 66 anos, nomeado há menos de um ano como comandante das Forças Armadas iranianas, responsável pela coordenação entre o exército regular e os Guardians da Revolução (IRGC). Mousavi, cuja carreira começou após a revolução de 1979 e se consolidou ao longo de conflitos regionais, assumira o posto de chefe do Estado‑Maior em meio à escalada de tensões com Estados Unidos e Israel no ano anterior.
Mohammed Pakpour, comandante das forças terrestres do IRGC e considerado um dos arquitetos da estratégia regional e das operações transfronteiriças, também está entre os mortos. Pakpour liderava unidades-chave responsáveis tanto pela segurança interna quanto pelo apoio às milícias aliadas que projetam a influência iraniana em teatros como Síria, Líbano e Iraque.
Por fim, a eliminação de Aziz Nasirzadeh — ex-ministro da Defesa, ex-comandante da Força Aérea e vice‑chefe do Estado‑Maior — representa um golpe às capacidades de desenvolvimento de mísseis, drones e tecnologias aeroespaciais do país. Nasirzadeh era um dos pilares industriais e militares cuja expertise era central na transferência de sistemas de armas para aliados regionais.
O exército israelense declarou ter removido também um dos principais chefes do aparato de inteligência e o responsável pela divisão de espionagem, um fato que, se confirmado, indica uma operação de alto valor focalizada nos circuitos decisórios e nas capacidades clandestinas do Irã.
Do ponto de vista da tectônica de poder, trata‑se de um movimento que visa não só reduzir capacidades militares imediatas, mas reconfigurar, por descontinuidade, as linhas de comando e os canais de influência de Teerã. Em termos diplomáticos, os alvos atingidos — conselhos, quartéis‑generais e diretorias de inteligência — sugerem intenção de impacto estratégico, mais do que mera retaliação simbólica.
Resta agora observar a capacidade de resposta do regime iraniano: a resiliência institucional, a recomposição de lideranças e a eventual adoção de contra‑medidas assimétricas serão peças decisivas no próximo capítulo dessa crise. No tabuleiro regional, o vazio de comando deixado por essas perdas poderá acelerar movimentos de realinhamento entre aliados e rivais.
Artigo atualizado em 02 de março.






















