Na madrugada, a Rússia lançou um ataque com numerosos drones contra a cidade ucraniana de Kryvyi Rih. Autoridades regionais informaram que uma empresa local foi atingida e que vários incêndios foram deflagrados, embora não haja registro de vítimas. O chefe da administração regional de Dnipropetrovsk, Oleksandr Ganzhy, e o líder do Conselho de Defesa da cidade, Oleksandr Vilkul, relataram via Telegram que os bombeiros trabalham para controlar as chamas e eliminar as consequências do ataque.
Em um vídeo-mensagem, o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que Moscou está a preparar novos ataques direcionados a infraestruturas ucranianas, citando relatórios das agências de inteligência. “Sabemos que os russos não têm intenção de parar seus ataques. É um fato. Estão a preparar novos ataques. Contra as infraestruturas”, disse ele, exortando os responsáveis pela proteção do país a manterem-se concentrados na primavera da mesma forma que estiveram no inverno.
Zelensky fez uma leitura comparativa: a atual evolução no Medio Oriente expõe a dificuldade de garantir proteção total contra mísseis e drones Shahed. Mesmo Estados do Golfo, que dispõem de sistemas de defesa aérea em maior número e tecnologia mais avançada do que a fornecida até agora aos parceiros da Ucrânia, não conseguem abater todos os projéteis. “Há Shahed que não foram interceptados na região. Todos veem agora que a nossa experiência na defesa é em grande parte insubstituível”, afirmou o presidente, propondo que Kiev compartilhe expertise com países que apoiaram a Ucrânia durante o inverno.
O apelo de Zelensky tem um duplo eixo: técnico e industrial. No plano técnico, sublinhou-se a necessidade de consolidar áreas de prontidão e vigilância para enfrentar ondas de ataques; no plano industrial, pontuou-se a urgência de ampliar a capacidade produtiva de sistemas de defesa aérea, tanto contra drones quanto contra mísseis balísticos. Essa combinação é apresentada como elemento essencial para a segurança europeia: “A Europa ainda precisa dotar-se de uma força real, de uma capacidade real para defender seu céu, sua terra e seu mar”, disse o presidente.
Os números divulgados durante o discurso reforçam a amplitude dos ataques sofridos no período: segundo informes citados por Kiev, durante o inverno a Rússia lançou 738 mísseis, mais de 14.600 bombas aéreas guiadas e quase 19.000 drones. Zelensky avaliou que este foi “o inverno mais difícil” desde o início do conflito, uma investida que visou “transformar o inverno na destruição da Ucrânia e dos ucranianos”. Ainda assim, afirmou: “Hoje podemos dizer com razão: superamos este inverno”. Para o presidente, a preservação do sistema energético foi um resultado estratégico decisivo, mimo de uma defesa que enfrentou ondas massivas de ataques envolvendo dezenas de mísseis e centenas de Shahed.
Do ponto de vista estratégico, a mensagem presidencial serve a dois propósitos. Primeiro, comunicar resiliência e capacidade operacional renovada de Kiev; segundo, sinalizar aos parceiros ocidentais que a tectônica de poder regional exige não apenas solidariedade política, mas um esforço coordenado para fortalecer a produção e a integração de sistemas de defesa. Em termos de tabuleiro geopolítico, trata-se de deslocar o centro de gravidade da proteção: não apenas interceptar, mas construir alicerces industriais e de doutrina que reduzam a vulnerabilidade das infraestruturas críticas.
O ataque a Kryvyi Rih e os alertas de Zelensky desenham um quadro em que a guerra de infraestruturas — energia, comunicações, logística — permanece como eixo central do conflito. A próxima primavera, portanto, será um novo movimento decisivo no tabuleiro, onde a capacidade de antecipação e a musculatura produtiva em defesa aérea podem definir não apenas vitórias táticas, mas a sustentação estratégica da Ucrânia e da segurança europeia.






















