Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
As tensões militares entre Estados Unidos, Israel e Irã voltaram a projetar sombras sobre a realização da Copa do Mundo 2026 e, em particular, sobre a participação da seleção iraniana no torneio que será sediado por Canadá, Estados Unidos e México. A operação militar em curso levanta dúvidas concretas sobre a segurança logística e física de atletas e torcedores — questões que extrapolam o campo esportivo e entram no domínio da geopolítica e da segurança internacional.
O Irã tem programadas duas partidas da fase de grupos em Los Angeles e uma em Seattle. Segundo relatos não confirmados, o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, afirmou à televisão pública que “é improvável que possamos olhar para a Copa do Mundo com confiança, mas são os responsáveis esportivos que devem decidir a respeito”. A declaração traduz a incerteza institucional que envolve federações nacionais quando o curso dos acontecimentos ultrapassa o âmbito esportivo.
Do ponto de vista estritamente competitivo, a seleção iraniana está enquadrada no Grupo G, ao lado de Bélgica, Nova Zelândia e Egito. Mas o calendário e os adversários perdem relevância diante de uma questão fundamental: como garantir que delegações e torcidas possam se deslocar e permanecer em segurança num contexto de conflito?
A Fifa tem adotado até aqui uma postura de monitoramento. Na véspera do início do cronômetro para os 100 dias que antecedem o torneio, o secretário-geral da entidade, Mattias Grafström, declarou, à margem da assembleia anual do International Football Association Board (IFAB) em Cardiff, que é prematuro fazer avaliações definitivas e que a Fifa continuará acompanhando os desenvolvimentos. A entidade aposta, pelo menos publicamente, na desaceleração da crise para manter intacta a participação do Irã e a presença de seus torcedores nos estádios norte-americanos.
Essa situação abre um leque de reflexões sobre o papel das organizações esportivas em tempos de conflito. A logística de um Mundial distribuído por três países já impõe complexidade inédita — desde vistos e infraestrutura até protocolos de segurança transfronteiriços. Acrescente-se a isto o peso simbólico: exclui-se um país por motivos de segurança ou política, e a decisão reverbera na percepção internacional sobre a imparcialidade das instâncias esportivas.
Historicamente, eventos esportivos internacionais funcionam como vitrines de soft power e também como territórios de tensões não resolvidas. A questão agora é operacional e ética: quem decide, com que critérios e com quais garantias? Federações nacionais, a Fifa, governos anfitriões e organizações de segurança terão de dialogar com celeridade e transparência.
Para além das declarações institucionais, o elemento humano é central: torcedores iranianos que planejam viajar aos Estados Unidos, atletas cujo ciclo de preparação e sonhos culmina num Mundial e funcionários das delegações. A incerteza não afeta apenas uma tabela de jogos; toca carreiras, economias locais ligadas à competição e, sobretudo, a experiência democrática e universal que o futebol pretende representar.
Enquanto as autoridades acompanham os desdobramentos, permanece a esperança institucional de que um acalmar das tensões políticas permita que a Copa do Mundo 2026 seja realizada com a pluralidade de países e torcidas prevista. Mas o calendário não espera: decisões difíceis podem ser necessárias nas próximas semanas, e o mundo do futebol observa com atenção medida e preocupação.






















