Em uma conferência de imprensa que soou como uma cena-chave de um roteiro íntimo, Sal Da Vinci descreveu a sua conquista no Festival de Sanremo 2026 não apenas como um triunfo pessoal, mas como “a vitória de um povo”. Entre emoção e memória, o cantor napolitano traçou o percurso que o levou ao ápice da noite, lembrando quedas e persistências que transformaram a sua carreira em um pequeno épico de perseverança.
Visivelmente comovido, Sal contou que deve muito à sua companheira de vida, Paola. A ela é dedicada a canção vencedora, Per sempre sì, e foi a figura central de uma narrativa afetiva que atravessa quase quatro décadas: “Grazie a mia moglie Paola, grazie a lei sono riuscito a sopravvivere nella tana dei lupi”, disse, evocando com delicadeza as provas e os susténs que moldaram sua trajetória. O primeiro beijo em Posillipo, o encontro em 1984, a simbiose silenciosa entre o casal — tudo entrou para o mosaico íntimo de uma vitória que é, acima de tudo, humana.
Ao falar do significado do prêmio, Sal interpretou o reconhecimento como um espelho do nosso tempo: “Esta é a vitória de todos aqueles que vêm do baixo”, afirmou, lembrando os 13 ensaios ao longo de anos até chegar ao triunfo. Referiu-se à longa estrada que começou a dar frutos em 2009 e que, depois de 17 anos, culminou nesta consagração. “Não foi apenas sucesso; apesar do mar em tempestade, sempre tentei levar o navio ao porto”, disse, em imagem marítima que remete tanto à sua origem napolitana quanto ao roteiro oculto de quem persiste.
Num gesto de fraternidade artística, Sal Da Vinci declarou ter recebido uma ligação de Geolier antes de entrar na sala de imprensa e afirmou querer compartilhar o prêmio com ele, ressaltando uma afinidade de origem: “ele vem do povo como eu, porque a sua participação aqui ficou de algum modo incompleta”. A frase desenha um eco cultural: a música contemporânea nascida nas ruas encontra, em Sanremo, um espaço de legitimação e diálogo.
Sobre a tradição e a visibilidade da música napolitana, Sal foi categórico: “Nápoles sempre cantou, mesmo sem Sanremo, e sua música é reconhecida no mundo todo”. Ao mesmo tempo, enxergou neste reconhecimento a oportunidade de internacionalização: questionado sobre o Eurovision, respondeu afirmativamente — “per sempre sì” — e definiu a participação como um compromisso grandioso para levar a canção italiana além das fronteiras.
Ao dissipar rumores, o artista refutou um meme que o vinculava a uma posição no referendo sobre a justiça: “Nunca declarei nada; cada um até o último momento pode decidir o que quer fazer e dizer. É uma fake news.” E, por fim, reafirmou a sua identidade artística, voltando ao que parece ser o seu princípio ético: “Sou e permanecerei um operário da música” — uma imagem prosaica e sincera, que desmonta o brilho de um prêmio em favor da disciplina quotidiana do ofício.
Como observadora cultural, vejo nesta vitória mais do que um troféu: é o reframe de uma carreira que dialoga com a memória coletiva, a semiótica do viral e o cenário de transformação da música italiana. Sal Da Vinci não ganhou apenas um festival; ganhou a confirmação de que histórias provenientes das margens ainda têm voz quando se mantêm fiéis ao próprio timbre. E essa é, talvez, a lição mais elegante que Sanremo nos devolve: o sucesso, quando partilhado, reflete um espelho social maior.





















