Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Roberto Piazza, técnico italiano da seleção masculina de vôlei do Irã, descreve com franqueza a sensação que atravessa jogadores e civis após os recentes bombardeios dos Estados Unidos e de Israel. “Liguei para os meus rapazes para saber onde estavam e, sobretudo, como estavam. A maior parte joga no exterior e, logico, todos estão angustiados pelas suas famílias que permanecem no Irã”, conta Piazza, que divide sua vida entre Milão — onde também treina a Powervolley — e Teerã, cidade que conhece bem.
Naquela que é uma das leituras obrigatórias para entender o esporte como fenómeno social, Piazza lembra que o vôlei no Irã não é apenas uma modalidade: é o segundo desporto nacional, com atletas que gozam de estatuto de estrelas e responsabilidade pública. “Eles estavam a preparar as malas para a sobrevivência médica. Nós, muitas vezes, pensamos em comida; lá precisam de ataduras e medicamentos”, relata o treinador, visivelmente preocupado com o impacto material e psicológico sobre os jogadores e suas famílias.
O episódio traz à tona uma constatação que me parece central: o atleta moderno, especialmente aquele que milita entre clubes estrangeiros, é simultaneamente um trabalhador transnacional e um vínculo com uma comunidade em crise. Piazza não esconde sua perplexidade. “Sou treinador de vôlei e não faço política, mas certas coisas me deixam perplejo — como é possível que alguém decida atacar?”. A frase, carregada de interrogação ética, revela a fricção entre o papel técnico-profissional e a percepção de eventos geopolíticos que atravessam a vida dos atletas.
Os colaboradores de Piazza no Irã relatam uma dupla logística: manter rotinas de treino e competição enquanto organizam medidas de proteção mínima para casos de emergência — um gesto prático que traduz a adaptação cotidiana de sociedades em contexto de conflito. É também um lembrete de que, quando as arenas se acalmam, as prioridades devolvem o foco para a sobrevivência e o cuidado.
Do ponto de vista estrutural, a situação força clubes e federações a rever calendários, protocolos de segurança e suporte psicológico. Jogadores baseados fora do Irã enfrentam o dilema humano de seguir competindo longe enquanto pares e familiares lidam com insegurança. Para técnicos como Piazza, que transitam entre culturas esportivas distintas, a responsabilidade excede o plano tático: há que prestar atenção ao tecido comunitário que sustenta cada atleta.
Mais do que uma notícia sobre um treinador preocupado, a declaração de Piazza é um retrato da interseção entre desporto e sociedade: estádios e ginásios que normalmente funcionam como válvulas de expressão coletiva tornam-se, por vezes, pontos de vulnerabilidade simbólica quando nações entram em convulsão. O desafio imediato é proporcionar condições mínimas de segurança e apoio — médico, logístico e mental — para que o jogo possa continuar sem apagar a dimensão humana que o funda.
Em tempos de incerteza, as palavras de Piazza ecoam como um pedido de atenção: não basta olhar o campeonato; é preciso olhar quem compete e por que. O vôlei iraniano, com sua popularidade e impacto social, está no epicentro dessa pergunta.






















