Marco Severini, Espresso Italia — Abre-se um capítulo crítico na história política do Irã: o processo de sucessão à figura do Guia Supremo emergiu como movimento decisivo no centro do tabuleiro geopolítico. Após o anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos e a confirmação, algumas horas depois, pela mídia oficial iraniana, surgiram medidas provisórias e uma série de nomes colocados como herdeiros potenciais da autoridade teocrática.
Segundo a agência estatal IRNA, durante a fase de transição a chefia do Estado teria sido atribuída ao presidente interino, Masoud Pezeshkian, ao chefe do poder judiciário e a um jurista do Conselho dos Guardiões, sem detalhar os passos subsequentes. Formalmente, a decisão final sobre a nomeação do novo Guia Supremo cabe à Assembleia dos Especialistas, órgão sacerdotal responsável por confirmar a nova máxima autoridade político-religiosa.
No cenário interno constam, reiteradamente, três nomes que, segundo análises anteriores do próprio centro de poder de Teerã, haviam sido apontados como possíveis sucessores: Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i (chefe do judiciário), Ali Asghar Hejazi (chefe de gabinete apontado por Khamenei) e Hassan Khomeini (figura religiosa moderada e neto do fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini). Informações militares israelenses relatam que Hejazi teria sido morto nos ataques; esse dado, se confirmado, altera profundamente as peças em jogo.
Outro nome ventilado é o de Mojtaba Khamenei, filho influente do falecido líder, embora o próprio Ali Khamenei tivesse, em vida, descartado a sucessão dinástica como caminho para a chefia da República Islâmica. Mesmo assim, a menção de familiares reflete a elasticidade das redes de poder e a possibilidade de conservadorismos institucionais tentarem reproduzir alcovas de influência.
Antes dos ataques, e segundo reportagens internacionais, Khamenei havia já tomado medidas para assegurar continuidade do sistema: delegou a gestão operacional a Ali Larijani, chefe do Conselho de Segurança Nacional, reduzindo na prática a autonomia do presidente Masoud Pezeshkian. Larijani, figura de enorme resiliência política, aparece assim como peça-chave — um estrategista capaz de articular a manutenção da estabilidade institucional enquanto ocorrem as negociações internas.
Fontes iranianas indicam que o falecido líder havia estruturado vários níveis de sucessão para cargos civis e militares, autorizando um núcleo restrito de aliados a tomar decisões em caso de sua morte ou desaparecimento em contexto de guerra. Entre as figuras apontadas como próximos a esse núcleo figuram o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o conselheiro militar Yahya Rahim Safavi.
O quadro é, portanto, de incerteza calculada: as instituições formais — a Assembleia dos Especialistas, o Conselho dos Guardiões, o aparelho militar e os órgãos de segurança — operam como as colunas de uma arquitetura clássica que, apesar de abalada, busca manter os alicerces do regime. Nos bastidores, o jogo de sucessão será tanto religioso quanto político, um problema de legitimação interna e de leitura internacional.
Do ponto de vista externo, a definição do novo Guia Supremo redesenha linhas de influência no Oriente Médio e reequaciona calibragens entre Teerã, aliados regionais e potências ocidentais — um redesenho de fronteiras invisíveis que terá repercussões profundas na tectônica de poder.
Em suma: o falecimento anunciado de Khamenei abriu uma partida complexa. A figura de Ali Larijani emerge como gestor de transição; os nomes tradicionais da elite clerical e militar permanecem no tabuleiro; e a Assembleia dos Especialistas terá a última palavra, numa movimentação que definirá o curso do Irã nas próximas décadas.






















