Por Alessandro Vittorio Romano — Havia no olhar de Andrea uma paisagem: azul profundo como o mar da Ligúria, às vezes salpicado de cinza, um tom que falava sem palavras. Aos 21 anos, esse jovem italiano deixou um legado silencioso que agora se transforma em visão para outra pessoa. Diagnosticado aos 16 com a rara doença de Lafora, Andrea viveu um percurso de esperanças adiadas e de uma busca incansável por tratamentos que, infelizmente, não chegaram a tempo.
A doença rara que o acometeu é implacável: crise após crise, ela desordena movimentos, corrói capacidades cognitivas e transforma os dias em um terreno onde o corpo e a memória perdem seus mapas. Em 2020, após a primeira crise epiléptica, houve quase dois anos de exames, idas e vindas por hospitais, até que a lâmina do diagnóstico cortasse o silêncio e desse nome ao que acontecia. A família – pai Stefano e mãe Daniela – encontrou no ospedale Bellaria, em Bolonha, um farol: um centro ultrasspecializado que acompanha a maioria dos pacientes com Lafora.
Houve, no horizonte, uma esperança experimental: uma terapia desenvolvida pela Ionis Pharmaceuticals. Mas o caminho clínico sofreu interrupções, retardos e, com a pandemia de Covid, um forte abalo que empurrou projetos para longe do alcance imediato das famílias. Enquanto isso, Andrea suportou exames, deslocamentos e tratamentos com a coragem discreta de quem aceita a própria fragilidade como parte de uma história maior.
Na manhã gelada do fim de janeiro, Andrea partiu. No luto, emergiu um gesto que falou da sua essência: ele havia dado o seu consentimento à doação de órgãos. “No momento do anúncio, nos emocionou a beleza do gesto”, lembram Stefano e Daniela. Nos gestos simples e nobres habitam as maiores lições: a generosidade de um jovem agora devolve, literalmente, a visão a outra pessoa. No dia 22 de janeiro, no hospital de Desio, foram transplantadas as suas córneas; os demais órgãos, por circunstâncias clínicas, não puderam ser aproveitados.
Essa história é, ao mesmo tempo, íntima e coletiva. Revela como um sim à doação pode abrir portas e transformar destinos. Mostra também o peso da condição de quem vive com patologias raras: muitas vezes órfãs de soluções, dependem da atenção especializada, de referências claras em situações de emergência e de caminhos clínicos estáveis que não parem nas ondas dos acontecimentos mundiais.
Como observador da vida italiana e dos ritmos que ligam a paisagem à saúde, eu vejo nesta narrativa duas estações entrelaçadas: o inverno da perda e o renascimento que brota da generosidade. Para as famílias afetadas por doenças como a Lafora, é vital que haja redes de apoio, centros que funcionem como porto seguro e políticas públicas que deem continuidade à pesquisa, mesmo em tempos de tempestade.
Andrea foi capaz, até nos seus últimos atos, de surpreender e ensinar. O presente que deixou — seus olhos — é uma metáfora viva: a doação ilumina trajetórias, reconstrói rotas e lembra que, mesmo quando as estradas se fecham, um gesto humano pode abrir novas janelas para o mundo. Que sua história sirva como chamado à atenção: mais atenção às doenças raras, mais apoio às famílias, mais compromisso com pesquisas que tragam respostas reais. E que, na respiração da cidade e no calor das pequenas comunidades, cresça a cultura do dom compartilhado.





















