Na noite das covers do Sanremo 2026, realizada na sexta-feira, 27 de fevereiro, um encontro musical trouxe um quadro de delicadeza e modernidade ao palco do Teatro Ariston. O compositor e produtor Dardust — nome artístico de Dario Faini — subiu ao palco para interpretar a canção “Golden Hour”, do artista americano JVKE, acompanhado por Ermal Meta, que neste festival compete com o single “Stella stellina”.
Mais do que uma performance, a colaboração foi um pequeno manifesto do que Dardust representa na cena contemporânea: a capacidade de agir como um ponteiro sensorial entre o piano clássico e as malhas eletrônicas, transformando arranjos em paisagens emocionais. Nascido em Ascoli Piceno, Faini aprendeu piano desde cedo e construiu uma trajetória que o colocou entre os produtores e compositores mais influentes da Itália atual.
Assinando contratos e parcerias desde 2006, quando entrou para a Universal Music Publishing, Dardust experimentou tanto a escrita para outros artistas quanto a carreira solo. Em 2015 ele lançou o álbum 7, seguido por Birth em 2016 — um projeto cujo nome remete explicitamente a Ziggy Stardust, a homenagem implícita a David Bowie evidenciando sua sensibilidade pop e cinematográfica.
Na prática, a noite das covers confirmou o repertório prático de Faini: arranjos para vozes reconhecíveis, produções que dialogam com o mainstream e com a alta experimentação sonora. Entre as colaborações que corroboram sua relevância estão trabalhos para Mahmood (incluindo o sucesso Soldi), Thegiornalisti, Emma Marrone, Giusy Ferreri, além de composições marcantes levadas ao palco de Sanremo por artistas como Madame, Irama, La Rappresentante di Lista, Noemi e Francesco Renga.
A escolha de interpretar “Golden Hour” com Ermal Meta não é casual: trata-se de uma canção que celebra a intimidade e a luz — metáforas que combinam com o repertório de Faini, especialista em criar governos tímbricos onde a luz e a sombra são material sonoro. No Ariston, a canção ganhou uma roupagem que fundiu o lirismo vocal de Meta com a paleta eletrônica e pianística de Dardust, resultando em um momento contemplativo que funcionou como espelho do nosso tempo — uma pausa sensorial em meio ao ritmo frenético da competição.
Como observadora cultural, vejo nessa atuação mais do que técnica: há um pequeno roteiro oculto da sociedade que se desenha quando artistas e produtores reescrevem hits estrangeiros para um público italiano. É um reframe da realidade — tradução afetiva que permite ao público reconhecer memórias pessoais nas sonoridades globais. No caso de Dardust e Ermal, a tradução foi elegante, contemporânea e perfeitamente alinhada ao clima de Sanremo: tradição e inovação em diálogo.
Para o público e para os críticos, momentos como esse reforçam o papel de Dardust não apenas como um produtor por trás dos holofotes, mas como um intérprete que consegue transformar arranjos em narrativas. E para quem acompanha o festival como catálogo de tendências, a colaboração com Ermal Meta foi mais um dos pequenos sinais sobre como a música italiana continua a olhar o mundo sem perder sua própria luz.






















