Por Chiara Lombardi — No palco do Ariston, durante a serata das covers em Sanremo 2026, um gesto pequeno e ruidoso deixou o público curioso: o cantor TonyPitony, mascarado de Elvis Presley, trouxe consigo um caco — o fruto — e o depositou sobre o palco ao fim de sua performance. A aparição aconteceu na noite de sexta-feira, 27 de fevereiro, quando o artista subiu para duetar com Ditonellapiaga ao som de “The Lady Is a Tramp”, clássico eternizado por Frank Sinatra.
O público e os telespectadores ficaram inicialmente desconcertados, mas quem acompanha a trajetória provocadora do artista reconheceu o movimento como coerente com sua linguagem estética. Não foi um gesto gratuito: existe um roteiro ligado ao mundo interior do cantor que aponta para essa simbologia. A referência remete a uma linha da sua canção “Tony’s Vocal”, em que ele entoa uma promessa de um ato extremo e deliberadamente escatológico — uma imagem chocante que, longe de ser mero choque, funciona como assinatura performática.
É curioso observar como um objeto tão prosaico quanto um caco se transforma em ícone temporário quando colocado no centro de um ritual midiático como Sanremo. É o espelho do nosso tempo: a cultura pop que se arma de símbolos inesperados para questionar a própria cerimônia da representação. Ao depositar o fruto no palco, TonyPitony faz mais do que cumprir uma promessa lírica; ele instaura um refração — o gesto ressignifica a canção, o espetáculo e a maneira como reagimos ao grotesco performático.
Há ainda uma camada performativa e metatextual. Ao se mascarar de Elvis Presley, ele convoca a memória coletiva do showman enquanto quebra a reverência com uma provocação contemporânea: a reverência antiga encontra o reframe da irreverência moderna. A escolha de “The Lady Is a Tramp” para o dueto não é aleatória; Sinatra e Elvis pertencem a uma linhagem de figuras que moldaram a cultura popular. Inserir um caco nessa genealogia é como inserir um comentário ácido sobre tradição e transgressão.
Do ponto de vista sociológico, o gesto dialoga com a estética do choque que circula nas redes e na música independente: chamar a atenção para forçar a reflexão. Ainda que multi-interpretável — performance política? declaração anti-establishment? simples aposta no viral —, o episódio revela a função do artista como provocador de sentidos, não apenas fornecedor de entretenimento. Como analista, vejo nesse ato uma pequena cena que amplia o roteiro oculto da sociedade: convocamos a surpresa para falar sobre limites, memória e identidade cultural.
Independentemente de quem aplaude ou critica, o caco deixou sua marca simbólica no tapete vermelho do festival. Em tempos em que cada gesto é microconteúdo, o que parecia uma anedota virou comentário: a semiótica do viral encontrou, no fruto depositado no palco, uma breve e mordaz metáfora do nosso presente.






















