Por Chiara Lombardi — A Agnès Varda retorna à cena cultural de Roma como se o seu olhar, já icônico, abrisse novamente o roteiro oculto da cidade. A Accademia di Francia – Villa Medici inaugura em 25 de fevereiro a mostra “Agnès Varda. De-ci De-là. Paris-Rome”, a primeira grande retrospectiva dedicada à fotógrafa e cineasta em território italiano, pensada em diálogo com o septuagésimo aniversário do gemellaggio entre Paris e Roma.
Curada por Anne de Mondenard (musée Carnavalet – Histoire de Paris) e resultado de mais de dois anos de pesquisa sobre o acervo fotográfico da artista, a exposição ficará em cartaz até 25 de maio. Ela convida o visitante a uma imersão na Paris do pós-guerra, centrando-se especialmente no cortejo vital do cortile-atelier da rue Daguerre, espaço que funcionou como estúdio, laboratório e primeira vitrine pública da obra de Varda desde os anos 1950.
O percurso expositivo traça a transformação da fotógrafa em cineasta, e vice-versa, por meio de 130 impressões originais, excertos de filmes, publicações, documentos, cartazes, fotos de cena e objetos pessoais. Essa montagem estabelece um diálogo entre imagem fixa e imagem em movimento, como se a fotografia fosse o espelho do tempo que, mais tarde, se desdobra em montagem cinematográfica. Entre os materiais em destaque estão obras e trechos emblemáticos, como Cléo de 5 à 7 (1962) e Daguerréotypes (1975), que revelam sua atenção permanente às mulheres e às vidas marginais – temas que voltam como leitmotiv em sua obra.
Além do olhar urbano parisiense, a mostra reúne também as fotografias realizadas por Varda nas viagens à Itália — de Veneza a Roma —, em jardins renascentistas, vilas e sets de filmagem, articulando geografia e memória. A exposição apresentada inicialmente em Paris (9 de abril a 24 de agosto de 2025) é fruto de uma colaboração com Paris Musées e dos arquivos da Ciné-Tamaris, produtora fundada por Varda e hoje conduzida por seus filhos, Rosalie Varda e Mathieu Demy.
Há, neste recorte cronológico e temático, a possibilidade de ler a obra de Agnès Varda como um mapa sentimental: o pátio da rue Daguerre transforma-se em microcosmo, laboratório afetivo onde convivem intimidade e comunidade, imagem e celebração da alteridade. Fotografias e filmes expõem um olhar irreverente e terno, atravessado por humor e singularidade — como se cada quadro fosse uma pequena cena de cinema, capturada com a economia de um close bem pensado.
O projeto curatorial enfatiza ainda o estatuto pioneiro de Varda: foi a primeira cineasta a receber o Oscar Honorário, sinalizando um percurso que atravessa e redefine fronteiras entre fotografia e cinema. Em complemento à mostra na Villa Medici, a obra de Varda será protagonista de “Viva Varda” (6 de março de 2026 – 7 de fevereiro de 2027) na Galleria Modernissimo da Cineteca di Bologna, em parceria com a Cinémathèque française, trazendo a Roma e a Itália um segundo tempo expositivo que amplia o eco cultural da artista.
Visitar Agnès Varda. De-ci De-là. Paris-Rome é, portanto, trafegar por um território onde a fotografia funciona como um refrão: repetição e variação que desvendam a história afetiva de uma criadora. Em seu conjunto, a exposição não apenas celebra uma carreira — celebra um modo de ver que continua a moldar a semiótica do nosso tempo, um verdadeiro espelho do nosso tempo.






















