Por Alessandro Vittorio Romano – Em um dia em que a cidade parece respirar mais devagar, é importante lembrar que algumas doenças raras não afetam apenas o corpo, mas também a paisagem íntima da mente. O endocrinologista Antonio Stefano Salcuni, dirigente médico de Endocrinologia no hospital Santa Maria della Misericordia, em Udine, chamou atenção para o aspecto muitas vezes negligenciado do ipoparatiroidismo: o seu profundo impacto psicológico e psiquiátrico.
Apresentando reflexões durante o lançamento, em Turim, do livro “Voci dall’invisibile. Racconti che aprono sguardi”, parte do projeto “Raccontare l’invisibile” da Scuola Holden com o contributo non condizionante da Ascendis, Salcuni lembrou que a doença tem uma face conhecida — a biologia — e outra menos visível: as mudanças no humor e na identidade que acompanham quem vive com essa condição.
O ipoparatiroidismo é uma doença crônica e rara, caracterizada por uma secreção reduzida do paratormone. Essa carência hormonal conduz a níveis baixos de cálcio no sangue (ipocalcemia) e a níveis elevados de fósforo (iperfosfatemia). Essas alterações não são apenas números de laboratório: podem desencadear complicações agudas ou crônicas que repercutem no sistema nervoso e no coração.
As complicações crônicas, segundo o especialista, podem traduzir-se em alterações neurológicas e em mudanças em parâmetros do eletrocardiograma, com consequências relevantes para a saúde geral. Mas há algo que muitas vezes fica fora do prontuário: a alteração do estado de ânimo. Essa alteração pode atravessar os dias e as estações da vida como uma brisa que muda a cor das folhas — afetando relações interpessoais, o desempenho no trabalho e, por vezes, até o sentido de si mesmo.
Viver com uma doença rara é, em certa medida, aceitar uma nova geografia pessoal. É necessário conhecer bem esse território para traçar rotas de cuidado que não se limitem à reposição hormonal ou aos parâmetros bioquímicos. Salcuni sublinha a importância de considerar o componente psicológico para oferecer um tratamento verdadeiramente holístico: ouvir a história do paciente, reconhecer a mudança no ritmo emocional e integrar suporte psicossocial ao plano terapêutico.
Na prática clínica, isso significa trabalhar em equipe — endocrinologistas, cardiologistas, neurologistas, psicólogos e psiquiatras — e também integrar abordagens que ajudem o paciente a narrar sua experiência. Projetos de narrativa e escuta, como o que motivou o encontro em Turim, ajudam a iluminar o lado invisível da doença e a cultivar estratégias de enfrentamento que respeitam as raízes do bem-estar.
Em tom de observador sensível, proponho que tratemos essas questões como uma colheita: o cuidado físico planta sementes, e o acompanhamento psicológico rega o solo onde cresce a identidade. Quando o ipoparatiroidismo altera o humor, não é apenas o corpo que pede atenção — é a intimidade do tempo interno do paciente, a sua rotina e a sua respiração cotidiana na cidade.
Portanto, o apelo do especialista é claro e compassivo: não subestimar o impacto psicológico do ipoparatiroidismo. Conhecer bem o fenômeno permite trilhar o caminho certo de tratamento e oferecer à pessoa uma abordagem que cuida tanto das complicações clínicas quanto da qualidade de vida, preservando relações, trabalho e, acima de tudo, aquilo que define a identidade de cada um.






















