Por Marco Severini
Bruxelas — Em um movimento que remexe as peças no tabuleiro da segurança energética europeia, os primeiros-ministros da Hungria e da Eslováquia, Viktor Orbán e Robert Fico, formalizaram à Comissão Europeia a proposta de realizar uma inspeção conjunta ao oleoduto Druzhba em território ucraniano. A iniciativa surge no epicentro da disputa sobre a interrupção do fluxo de petróleo que abastece ambos os Estados-membros e que gozam de isenção temporária ao embargo da UE.
Em carta dirigida ao presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, Orbán afirmou que a Hungria aceitará as conclusões de uma missão de verificação conjunta. A oferta, colocada com tom conciliatório, chega enquanto Budapeste e Bratislava exercem pressão para obter garantias técnicas e políticas sobre a retomada dos fornecimentos de petróleo.
O histórico é conhecido: o oleoduto de origem soviética transporta petróleo russo através da Ucrânia até os dois países. Em 27 de janeiro, uma estação de bombagem foi atingida por um ataque atribuído às forças russas, episódio que levou Kiev a interromper o trânsito. A Hungria acusou abertamente a Ucrânia de adotar uma “decisão política”. Já a Eslováquia sustenta possuir informações de que, do ponto de vista técnico, o sistema permanece operacional.
No plano institucional, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, cobrou nas últimas semanas que Volodymyr Zelensky acelere os trabalhos de reparo, ao mesmo tempo em que reiterou confiança de que o pacote de apoio financeiro a Kiev para 2026-2027, acordado no Conselho Europeu de dezembro, será liberado “de uma forma ou de outra” até abril — prazo crítico, quando as reservas ucranianas estarão exauridas.
A Ucrânia por ora não detalhou cronogramas para as obras, sublinhando as dificuldades operacionais de consertos sob a sombra constante de ataques russos. Em Bruxelas, crescem as apreensões de que Orbán possa instrumentalizar a questão energética como peça central de sua retórica eleitoral — a Hungria votará em 12 de abril — aproveitando a narrativa da segurança nacional para ganhar tração num cenário doméstico adverso, onde as pesquisas o colocam em desvantagem diante do líder da oposição, Peter Magyar.
Contudo, a disposição formal em aceitar os achados de uma inspeção conjunta foi avaliada pela Comissão como “um passo positivo”. Fico propôs a constituição de um grupo de verificação composto por Eslováquia, Hungria e Comissão Europeia para constatar in loco a realidade técnica e operacional. Em uma postagem na plataforma X, Orbán convidou Zelensky a permitir o acesso de inspetores húngaros.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento calculado: buscar transparência sobre a infraestrutura enquanto se pressiona por um desfecho político e financeiro favorável. É um exemplo da fina tectônica de poder que move as capitais europeias — onde uma rota de petróleo pode virar eixo de influência, e uma inspeção, instrumento de diplomacia e de cálculo eleitoral.
Se a Comissão aceitar, a missão terá tanto papel técnico quanto simbólico: verificar danos, validar ou refutar narrativas concorrentes e, sobretudo, amortecer o choque político que ameaça condicionar o desembolso imprescindível a Kiev. No tabuleiro geopolítico, a próxima jogada será decisiva para a estabilidade dos fluxos energéticos e para a coerência da resposta europeia à pressão russa.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















