Dois terços dos pacientes oncológicos em tratamento ativo estão em risco de interações farmacológicas. Quando essas interações se tornam graves, elas são responsáveis por cerca de 2% das hospitalizações e podem contribuir para até 4% dos óbitos entre pessoas com câncer. Esses dados foram destacados no congresso nacional “Le interazioni farmacologiche nella gestione del rischio clinico: guida ragionata nel percorso decisionale (e all’etica della scelta)”, realizado na Statale de Milão em 27 de fevereiro de 2026.
Gianluca Vago, diretor do departamento de oncologia e emato-oncologia (Dipo) da Statale de Milão, chamou atenção para um elemento que muitas vezes passa despercebido: o aumento do risco de interações farmacológicas devido ao uso concomitante de medicamentos de suporte, como antieméticos, anticonvulsivantes, analgésicos e corticosteroides. “A elevada prevalência da politerapia nos pacientes oncológicos põe desafios únicos”, afirmou Vago. Segundo ele, essa combinação de fármacos pode comprometer tanto a eficácia quanto a segurança das terapias antitumorais, reduzindo o efeito terapêutico ou provocando eventos adversos inesperados.
Ao olhar para esse cenário, é útil imaginar o corpo como uma paisagem onde cada medicamento é uma espécie vegetal: algumas coexistem em harmonia e ajudam a paisagem a florescer; outras competem por recursos, sufocando a vizinhança e desequilibrando o ecossistema. Na oncologia, a “colheita” dos benefícios terapêuticos exige atenção sensível a essas interações.
Os especialistas reunidos no congresso defenderam medidas práticas para mitigar o risco. Entre as recomendações mais repetidas estavam: revisão contínua da medicação (medication reconciliation) em todas as etapas do tratamento, integração de farmacêuticos clínicos nas equipes multidisciplinares, uso de sistemas eletrônicos de prescrição com alertas para interações e diálogo aberto com o paciente sobre todos os fármacos, incluindo fitoterápicos e suplementos.
Além das ferramentas técnicas, emergiu no debate uma dimensão ética e humana: a necessidade de equilibrar o desejo de aliviar sintomas com a responsabilidade de não introduzir riscos injustificados. O desafio clínico é, portanto, também um exercício de julgamento, onde a decisão informada e compartilhada com o paciente ganha peso. Como observador atento, percebo que essas escolhas clínicas têm a mesma delicadeza de podar uma árvore para que ela cresça mais forte — uma intervenção que exige conhecimento, tato e um olhar de longo prazo.
Para o Serviço Nacional de Saúde, as consequências praticas são claras: as interações farmacológicas não só afetam resultados individuais como impõem um ônus adicional aos recursos hospitalares. Investir em prevenção — por meio de formação, tecnologia e fluxos organizacionais — é, portanto, uma forma de cuidar tanto do paciente quanto da sustentabilidade do sistema.
Ao final do congresso, ficou uma orientação que ressoa como um convite à atenção cotidiana: a gestão do risco farmacológico precisa ser incorporada ao ritmo dos cuidados, como a respiração da cidade que ajusta seu compasso às estações. Pacientes, cuidadores e profissionais de saúde são parceiros nessa paisagem, e pequenas mudanças na prática podem reduzir eventos adversos e salvar vidas.
Alessandro Vittorio Romano – Espresso Italia





















