Por Alessandro Vittorio Romano — Em Florença, durante o simpósio pelos 50 anos da Società Italiana per lo Studio delle Cefalee (Sisc), veio uma notícia que tem cheiro de primavera para quem vive à sombra das dores de cabeça: graças a tratamentos recentes, hoje cerca de 75% dos pacientes com enxaqueca conseguem viver sob controle da doença.
O dado, apresentado no encontro, traduz uma transformação que se desenrola ao longo de três décadas. A enxaqueca atinge cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo e aproximadamente 9 milhões na Itália — uma condição crônica, muitas vezes incapacitante, que acompanha as mulheres jovens desde a infância ou adolescência, como recorda Pierangelo Geppetti, presidente emérito da Sisc.
O percurso terapêutico ganhou marcos importantes. Nos anos 1990, a descoberta dos triptanos representou o primeiro grande avanço, oferecendo alívio específico para crises agudas. Como observa Marina De Tommaso, presidente da Sisc, os triptanos são eficazes, mas têm limitações: funcionam para episódios isolados e podem ser mal tolerados, sobretudo em pacientes com problemas cardio ou cerebrovasculares.
Mais recentemente, a paisagem clínica mudou com a chegada dos anticorpos monoclonais que atuam sobre a proteína CGRP, central na transmissão da dor e nos processos inflamatórios ligados à enxaqueca. Essas terapias, pensadas para prevenção, reduziram a frequência e a intensidade das crises em muitos pacientes, inclusive naqueles classificados como refratários aos tratamentos tradicionais. Ao lado delas, surgiram também medicamentos orais de nova geração (como os bloqueadores do receptor CGRP e outros agentes agudos inovadores) e abordagens não farmacológicas que ampliam o leque de escolha.
Para quem convive com a enxaqueca, a novidade não é apenas estatística: é a possibilidade de reaprender a respirar durante o dia, de reconquistar horários, trabalho e laços sociais que a dor costumava suspender. É como se o território interno — o tempo corporal — voltasse a ter estações menos extremas, uma respiração mais regular.
Os especialistas no simpósio enfatizaram que, apesar dos avanços, é preciso uma gestão personalizada da doença. Nem todo tratamento serve para todos; a escolha envolve características individuais, histórico clínico e riscos cardiovasculares. Além disso, o acesso e a adesão às novas terapias representam desafios práticos e de saúde pública: disponibilidade, custos e informação adequada são sementes que precisam ser cultivadas para que mais pessoas possam colher os benefícios.
Enquanto a medicina refina ferramentas farmacológicas e não farmacológicas, o papel do acompanhamento médico, da educação terapêutica e de um olhar atento ao estilo de vida permanece central. Pequenas mudanças — sono regular, hidratação, gestão do estresse, alimentação consciente — ajudam a compor a paisagem da cura, como um jardim que exige cuidados contínuos.
Em resumo: a combinação de inovação científica e cuidados integrados trouxe um resultado promissor: hoje, a maioria dos pacientes com enxaqueca pode viver com a doença sob controle. A novidade é um convite para redescobrir o bem-estar cotidiano — pouco a pouco, como a luz que retorna após o inverno.






















