Como quem recebe amigos para um almoço de domingo, eu observo Alicia Keys entrelaçar música, memórias e cozinha — e é impossível não se encantar. Na terceira noite do Festival de Sanremo, em 26 de fevereiro de 2026, o Teatro Ariston foi palco de um encontro que mistura palco e panela: a artista subiu para dividir um dueto em primeira execução mundial com Eros Ramazzotti, interpretando uma nova versão de «L’aurora». Para além da nota alta da apresentação, ficou o traço pessoal: as lembranças de origens italianas, a menção aos avós sicilianos e a intimidade cotidiana que ela divide com milhões nas redes.
Quem a acompanha sabe que, entre faixas e turnês, a cantora cultiva uma relação afetiva com a cozinha. Em seu perfil — sobretudo no TikTok, que ronda os oito milhões de seguidores — Alicia Keys transforma gestos simples em pequenos rituais: uma receita, um lanche, uma bebida tornam-se extensões da sua linguagem. É como se ela apurasse ideias como um molho lento, respeitando o tempo de maturação de cada sabor e guardando nas panelas lembranças de família.
Uma das criações que viralizou foi o chamado “eggnog vegan french toast”, uma reinvenção do clássico anglo-americano. A proposta tem essa doçura despretensiosa: manteiga e leite de origem vegetal — mas com uma flexibilidade curiosa, pois a mistura incorpora também um ovo. Em menos de cinco minutos, fatias de pan brioche passam por um banho perfumado com ovo batido, extrato de baunilha e, como toque mágico, um leite aromatizado ao estilo eggnog. Para quem não conhece, o eggnog é uma bebida festiva de raízes britânicas, próxima a um zabaione líquido, enriquecida por especiarias quentes como noz-moscada e canela.
No fogão, a cantora derrete a manteiga em frigideira, banha o pão e doura cada lado até alcançar aquela cor que lembra caramelo leve. Serve quente, frequentemente com xarope de bordo; mas mantém a mente aberta — e nos convida a abrir a nossa — sugerindo também versões salgadas, com pancetta fumada ou bacon de peru. É um gesto que celebra a dieta flexível: respeitar escolhas sem dogmas, acolher variedade como um banquete de possibilidades.
Outro provérbio doméstico que Alicia compartilha é uma combinação surpreendente: ovo mexido com cheddar acompanhado de compota de maçã. Ela antecipa o ceticismo com um sorriso: “sei que podem pensar que será um desastre — não é. Abram a mente, confiem”. E a validação veio em forma de replicação calorosa: vídeos de fãs e criadoras, entre elas a influenciadora Maria Legarda, reforçaram que a união do salgado com o doce, quando bem medida, é um casamento de contrastes que funciona.
Se há algo que me comove nesta narrativa é a forma como a comida aparece como memória e território. Alicia Keys não é uma chef formal, mas uma cultivadora de ritos domésticos; suas receitas simples são convites para viajar pelas raízes, para transformar a cozinha num lugar de aliança entre gerações. A cantora nos lembra que a cozinha é um mapa afetivo: cada ingrediente conta uma história, cada aroma reconstrói uma mesa de família.
Nesta volta ao palco italiano, entre acordes e sabores, resta a imagem de uma artista que traduz identidade em gestos domésticos. Como guardiã de tradições e defensora do respeito aos produtores e ao tempo, eu vejo nessa atitude a beleza da dieta flexível: escolhas feitas com afeto, com curiosidade, com o respeito ao que nos nutre — corpo e memória. E, enquanto a canção ecoa no Ariston, nas cozinhas muita gente já abriu a frigideira para testar o toque mágico do eggnog vegan french toast — porque, no fim, cozinhar é também partilhar um pedaço do próprio afeto.






















