Recebo você à mesa onde a música se mistura ao aroma das recordações. Raf, nome artístico de Raffaele Riefoli, volta a nos encontrar no festival com a mesma honestidade que faz a sua carreira respirar — sem pressa, com respeito às raízes. Depois de onze anos longe da competição, ele retorna ao palco do Ariston com Ora e per sempre, canção de forte teor autobiográfico escrita ao lado do filho Samuele. O título nasceu de uma frase em espanhol que um padre pronunciou quando abençoou seu casamento com Gabriella Labate, em Cuba, em 1996: uma promessa que se transformou em música e continuidades.
Como numa receita antiga, a vida de Raf é feita de poucos ingredientes bem escolhidos: disciplina, memória de origem e um presente partilhado com a família. Ele é reflexivo, reservado, pouco afeito ao espetáculo pela mídia; prefere a mesa como lugar de aliança e a rotina como um molho que se apura lentamente.
Uma dieta de simplicidade e afeto
Na alimentação, Raf cultiva a sobriedade. As manhãs costumam começar com iogurte, frutas e cereais integrais; o almoço privilegia verduras, arroz ou peixe; a noite é reservada a porções contidas, proteínas leves e vegetais da estação. O azeite extravirgem reina como tempero principal. Há também espaço, sempre com moderação, para um cálice de vinho tinto, companhia discreta da mesa, e para os sabores que lembram a Puglia — a terra que manda lembranças afetivas à distância.
Quando jovem e longe de casa, recebia da mãe pacotes com friselle, embutidos e conservas em óleo: pedaços de território embalados para lembrar quem era e de onde vinha. Mesmo dividindo o tempo entre a Itália e a Flórida, ele não abandona as tradições: as orecchiette com cime di rapa, prato que ainda prepara — embora admita com ternura que foi superado na cozinha pela esposa e pelos filhos — aparecem com frequência, como um gesto de fidelidade ao lugar de origem.
Corpo e palco: ritmo e cuidado
O cuidado com o corpo acompanha a disciplina alimentar. Movimentação regular, exercícios de baixa intensidade e ritmos ordenados são os aliados para enfrentar as exigências da preparação e da cena. Aos 66 anos — fruto de um percurso vivido com continuidade mais do que de soluções drásticas — ele conserva um aspecto que desafia as cifras do tempo.
Raízes e caminho
Nascido em Margherita di Savoia em 1959, Raf deixou cedo a Puglia para seguir a música. Passou por Florença e depois por Londres, onde aprendeu a dureza do ofício e da sobrevivência: carregou e descarregou mercadorias, lavou pratos e compôs sua tenacidade no suor do trabalho manual. Essas experiências formaram a base sólida de sua história, uma gaveta de memórias que hoje se abre em canções e afetos.
O retorno a Sanremo com Ora e per sempre não é uma busca por juventude ou por aplausos fáceis; é antes uma tradução musical de promessas, raízes e continuidade. Como quem acalenta uma panela no fogo baixo para extrair o melhor dos sabores, Raf afina a arte da sua vida com paciência, preservando o essencial: a família, a origem e a música como casa.





















