Inaugurada na Accademia Carrara, em Bérgamo, a exposição Tarocchi. Le origini, le carte, la fortuna reúne sete séculos de história, arte e simbolismo em uma narrativa curatorial que é, ao mesmo tempo, arqueologia visual e espelho do nosso tempo. O ponto de partida é, naturalmente, o deslumbrante Mazzo Colleoni, cuja recomposição acontece pela primeira vez após mais de um século.
São 74 cartas de refinada execução, encomendadas por Francesco Sforza a Bonifacio Bembo em meados do Quattrocento. Hoje dispersas entre a Accademia Carrara, a Morgan Library de Nova York e a coleção Colleoni, essas lâminas retornam a um todo que permite ler não só a técnica pictórica, mas também o roteiro oculto da sociedade renascentista — jerarquias, iconografias e jogos de poder traduzidos em reis, papesse, cavaleiros e virtudes.
A mostra se organiza de forma rigorosamente cronológica, uma escolha curatorial que facilita o percurso do visitante por territórios que, muitas vezes, parecem pertencentes a um passado mítico. Começa-se por uma sala que funciona como uma corte em miniatura: caças, danças, música e entretenimentos cortesãos, quando os baralhos eram chamados de Trionfi, em homenagem ao poema de Petrarca. Com a difusão da imprensa, no século XVI, as cartas perdem parte de seu exclusivismo aristocrático e entram no repertório do entretenimento popular.
O virar de página mais decisivo ocorre no final do século XVIII, na França: os tarocchi metamorfoseiam-se em instrumentos de adivinhação. Essa migração de função e significado chega à exposição por meio de peças emblemáticas, como o mazzo de Wirth — vindo da Biblioteca Nacional da França — e a coleção de Waite e Colman Smith, emprestada de Londres. Aqui, figuras como a Imperatriz, o Louco, a Justiça e a Temperança deixam de ser apenas alegorias para se tornarem chaves de leitura do destino.
Em um gesto de diálogo entre passado e presente, a última das sete seções é dedicada ao encontro entre os tarocchi e a pesquisa artística contemporânea. Os surrealistas recuperaram o elemento lúdico como ponto de partida; emblemática é a presença de Victor Brauner, que se autorretratou como o Bagatto. A mostra inclui ainda um conjunto conciso, porém incisivo, de obras de Leonora Carrington e Niki de Saint Phalle, artistas que reutilizaram as cartas como matriz simbólica para pinturas, tapeçarias e esculturas.
Fechando o percurso, uma parede de aquarelas de Francesco Clemente traz familiares, amigos e o próprio artista interpretando as figuras do tarot, um gesto íntimo que reencena a genealogia afetiva dos arquétipos. Ao passear entre essas salas, o visitante não apenas contempla objetos: participa de um reframe da realidade, convidado a perceber como um baralho pode ser, simultaneamente, documento histórico, espelho e cenário de transformação cultural.
O Mazzo Colleoni, os Tarocchi Brambilla e o Visconti di Modrone (vindos respectivamente da Pinacoteca di Brera e de Yale) confirmam que o diálogo entre as coleções é essencial para reconstruir a circulação de imagens e práticas ao longo dos séculos. A mostra é fruto de uma pesquisa iniciada em 2020 e de colaborações internacionais consolidadas, que colocam a Accademia Carrara no mapa das grandes instituições que investigam o imaginário europeu.
Mais do que uma reunião de cartas raras, esta exposição é um convite a ler o simbólico como vetor histórico: os tarocchi nos dizem tanto sobre o gosto e a técnica quanto sobre os medos e desejos de uma sociedade. Como qualquer boa obra de arte, ela funciona como um espelho — e, nesse reflexo, encontramos o roteiro oculto de nossa própria curiosidade cultural.






















