Por Riccardo Neri — Analista de infraestrutura digital
A edição 2026 do Sanremo expôs, com números frios, um problema estrutural que vai além das luzes do palco: a crise do streaming. Pela primeira vez em cinco anos, nenhuma das canções do festival ultrapassou a marca simbólica de 1 milhão de reproduções no Spotify Itália no dia seguinte à estreia — um sinal claro de que o fluxo de audiência mudou de rota.
Comparando as tabelas oficiais do Spotify para a quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026 — o primeiro dia completo de streaming após a abertura do festival — com os mesmos dias dos quatro anos anteriores (2025–2022), o padrão é inequívoco. O maior resultado individual foi “Male Necessario”, de Fedez com Marco Masini, com 992.370 streams. Em seguida vieram Sayf com “Tu mi piaci tanto” (933.598), nayt com “Prima che” (879.603) e Ditonellapiaga com “Che fastidio!” (862.826).
São números consideráveis isoladamente, mas insuficientes para romper a barreira psicológica do milhão — ponto que, em edições anteriores, funcionava como um termômetro da penetração imediata de uma canção no público. No agregado, os 30 artistas do festival somaram 17,38 milhões de streams, uma queda de 33% em relação a 2025, quando eram 29 faixas no ar. Em outras palavras: perdeu-se aproximadamente um terço dos streams em um ano.
Parte desse declínio acompanha um movimento global no consumo musical: o público está dedicando menos atenção a lançamentos recentes (queda de 26% ano a ano, 2026 contra 2025) e mais ao catálogo existente. Ainda assim, os dados sugerem que o próprio ecossistema do festival — seleção de artistas, canções e capacidade de gerar engajamento imediato — teve desempenho inferior ao observado em edições recentes.
Para dimensionar a anomalia, basta recuar alguns anos. Em 2022, uma única faixa explodiu: “Brividi”, de Mahmood e Blanco, alcançou 3,3 milhões de streams no segundo dia, um recorde que ainda impressiona. Em 2023 houve dois hits acima do milhão — Marco Mengoni (“Due vite”, 1,3M) e Mr.Rain (“Supereroi”, 1,2M). Em 2024 o salto foi maior: sete músicas ultrapassaram a marca, lideradas por Geolier com 2,1 milhões, Annalisa (1,6M) e Mahmood (1,5M).
Além disso, a presença das músicas de Sanremo nas tabelas internacionais encolheu: a música do festival praticamente desapareceu da Top 200 Global do Spotify, reforçando que a repercussão não se limitou a uma queda local, mas também afetou a visibilidade global das faixas.
No aspecto de audiência televisiva (Auditel), a abertura do festival não foi favorável, embora a terceira noite tenha mostrado alguma recuperação em share. Porém, enquanto a medição de audiência permanece um termômetro tradicional, os fluxos digitais funcionam como o sistema nervoso das preferências contemporâneas: menos impulsos registrados significam menor reflexo imediato nas plataformas que hoje alimentam playlists, rádios e algoritmos.
Interpretar esses dados exige uma visão de infraestrutura: não é somente uma queda de interesse episódica, mas um reposicionamento do fluxo de dados cultural. Produtores e programadores de festivais precisam enxergar o problema como um desafio de arquitetura — como ajustar as camadas de inteligência que ligam artistas, plataformas e público — para reconstruir os alicerces digitais que transformam uma performance em tendência.
Em suma, Sanremo 2026 não perdeu apenas alguns pontos de audiência; perdeu parte da sua capacidade imediata de ativar os circuitos de consumo musical digital. E, enquanto as luzes do palco iluminam músicos e memes, é nos logs e nas tabelas do Spotify que se lê o diagnóstico mais claro do momento.






















