Por Chiara Lombardi — Em uma noite de Festival que precisava de um reframe urgente, Ubaldo Pantani apareceu como o catalisador que transformou um programa morno em algo vibrante. Na terceira tentativa de Carlo Conti para recuperar o fôlego do evento, foi a presença de Pantani — e, em particular, sua leitura de Lapo — que reorientou a narrativa da noite e devolveu ao palco aquilo que muitos julgavam esquecido: a capacidade de fazer o público rir com inteligência.
As primeiras duas noites de Sanremo tinham deixado uma sensação de encefalograma plano: pouca imaginação, roteiro acelerado e convidados que, em vários casos, não foram realmente aproveitados. Nomes como Can Yaman apareceram sem o timing adequado; outros — entre eles Lillo e Pilar Fogliati — trouxeram performance correta, mas sem impacto adicional. É nesse contexto que a entrada de Ubaldo Pantani ganha proporções de virada: o humor funciona como descarga de adrenalina para uma plateia antes entorpecida.
Pantani não é apenas um imitador no sentido clássico. Como ele mesmo explica, prefere ser visto como um comico che fa imitazioni: um artista cujo processo criativo repousa em três pilares — a voz, a semelhança e o texto. Quando essas três chaves se alinham, o resultado é uma personagem que respira por si, e foi exatamente isso que se viu com sua versão de Lapo.
A trajetória dessa imitação é interessante do ponto de vista semiótico. Segundo o comediante, a caricatura de Lapo evoluiu: saiu de uma sátira do excesso para algo que se aproxima de uma figura quase fantástica, com traços que dialogam vagamente com a pessoa real, mas que assumem personalidade própria. Hoje, na leitura de Pantani, Lapo se torna um tipo de gaffeur rico, portador de uma ingenuidade performativa que permite dizer aquilo que outros não diriam — uma licença dramática que explora o humor como espelho do nosso tempo.
Curiosamente, a regra não escrita do Festival — preferir figuras raras, cuja presença seja um acontecimento — foi contrariada. Ubaldo Pantani é presença constante na televisão, aparecendo semanalmente em programas como o de Fazio, o que normalmente diluiria o impacto. Ainda assim, em apenas uma semana desde o anúncio de sua participação, ele montou um número fragmentado em diferentes entradas que, no conjunto, ditaram o tom de uma noite que finalmente encontrou sua coesão.
O resultado prático foi uma plateia surpreendentemente calorosa: risos recorrentes, reações espontâneas e uma sensação de que a comicidade, quando bem construída, tem força de redação narrativa — ela redesenha o roteiro oculto da sociedade que o Festival tenta refletir. Em termos culturais, a performance de Pantani atuou como um espelho bem colocado: mostrou que, mesmo em palcos grandiosos e muito mediatizados, a invenção autoral ainda pode reorientar a experiência coletiva.
Se há uma lição para organizadores e criadores de entretenimento, ela vem escrita nessa virada: apostar em quem domina a construção de personagem — e não apenas na celebridade — pode devolver ao público a sensação de descoberta. E no caso de Sanremo, a pequena revolução de Ubaldo Pantani provou que, quando a comicidade é afinada como roteiro, ela pode voltar a ser o pulso da festa.
Publicado em 27 de fevereiro de 2026






















