Por Chiara Lombardi — Há momentos em que o palco se transforma em vitrine e a canção vira rótulo: é isso que a Rai procura compreender ao iniciar verificações sobre uma possível ocorrência de publicidade oculta durante o Festival de Sanremo.
A protagonista desta reticente interseção entre música e mercado é a cantora Malika Ayane, que, segundo apurações, mantém contrato comercial com a marca de cosméticos Veralab e publicou em seu Instagram conteúdos identificados como #adv. O que acendeu o sinal de alerta foi o lançamento de um kit cosmético batizado justamente de “Animali Notturni”, título idêntico ao do seu tema em competição — coincidência que, no mosaico midiático atual, pode significar visibilidade multiplicada pela aura do Ariston.
Foi a jornalista Selvaggia Lucarelli, em sua newsletter Vale tutto, que chamou atenção para o acoplamento entre o título do single e o produto. Em resposta, a Rai comunicou que está reunindo elementos para avaliar possíveis responsabilidades e, se necessário, adotar providências. A emissora também afirmou não ter sido previamente informada sobre o pareamento do nome da canção com o de um produto comercial.
O caso não surge em vácuo: a Rai mostrou-se particularmente sensível ao tema nos últimos anos depois de episódios que resultaram em multas da Agcom. Entre os exemplos mais notórios estão o de John Travolta, no Ariston, com menções a um modelo de sapatos do qual era embaixador, e o de Chiara Ferragni, cujo uso do Instagram durante o festival — abrindo o perfil de Amadeus em transmissões ao vivo — também suscitou sanções regulatórias. Estes precedentes explicam por que a emissora prefere investigar com cautela antes de qualquer decisão.
Do ponto de vista cultural, o episódio funciona como um pequeno espelho do nosso tempo: o roteiro oculto da sociedade contemporânea, onde o entretenimento e o comércio frequentemente compartilham o mesmo enquadramento. A pergunta que ecoa é a de sempre em momentos de confluência midiática — até que ponto um título de canção pode coexistir com uma estratégia de produto sem transformar o palco em uma vitrine camuflada?
Para além do procedimento formal, há aqui um convite para refletir sobre os limites do patrocínio, a transparência necessária nas redes sociais e a responsabilidade dos criadores ao navegar entre expressão artística e acordos comerciais. O episódio Malika Ayane–Veralab é, portanto, mais que uma verificação técnica: é um pequeno estudo de caso sobre como reverberam, na cultura popular, as decisões tomadas nos bastidores do mercado.
Enquanto a Rai avança em sua apuração, o público e os especialistas em regulação observam — como espectadores atentos a um plano de roteiro que muda conforme as luzes se movem — para ver se haverá medidas disciplinares ou se o caso será arquivado como uma coincidência de nome e timing. Em todo caso, o debate sobre transparência e publicidade em eventos de grande exposição segue aberto.
Atualização (27/02/2026): A investigação da Rai está em curso. Novas informações serão divulgadas conforme a apuração avance.






















