Por Francesca Montelupo, para Espresso Italia
Na noite das cover do Festival de Sanremo 2026, o palco do Teatro Ariston iluminou uma memória afetiva: Cristina D’Avena, aos 61 anos, retomou a trilha sonora da nossa infância em versão elétrica, dividindo o microfone com Le Bambole di Pezza numa releitura rock de “Occhi di gatto”. A cantora, que começou sua história com o público ainda criança no “Zecchino d’Oro” em 1968 com “Il valzer del moscerino”, é a prova viva de que a relação com o tempo pode ser uma aliança, e não uma derrota.
Em conversas recentes, Cristina revelou o que mantém sua energia e presença: nada de fórmulas miraculosas, mas um pacto simples — moderação na mesa e movimento constante. “A dieta, unida a exercício físico constante”, disse à imprensa, lembrando que a restrição extrema apenas a entristece. Esta é uma filosofia que ressoa com a cucina povera: respeito aos ingredientes, sabedoria de porções e celebração do sabor sem culpa.
Sua abordagem é prática e afetuosa: não proíbe prazeres, apenas os doma com carinho. Em casa e nas viagens, confessa paixão pelos primeiros pratos — lasagne ao forno, tortellini, tagliatelle ao ragù ou à panna — e nas visitas às regiões queridas, entrega-se às tradições locais: o conforto das orecchiette com polpette na Puglia, os cannoli e a mozzarella in carrozza na Sicília. O pequeno pecado que raramente nega é o chocolate amargo, um toque de intensidade que casa bem com seu estilo de vida equilibrado.
Para compensar as delícias, Cristina não precisa de aparelhos ou contadores obsessivos; sua disciplina é a caminhada longa e decidida pelos parques de Bolonha, cidade que guarda suas memórias de infância. Caminhar, para ela, é como apurar as ideias em fogo baixo: um gesto repetido que transforma corpo e espírito. A cantora confessa que, quando comeu de forma desordenada, seu corpo mostrou isso; hoje, as porções menores e o ritmo das pernas devolvem-lhe a forma que vemos no palco.
Há, nessa simplicidade, um ensinamento que vai além da estética: a mesa como lugar de aliança entre prazer e cuidado. Cristina nos lembra que o alimento carrega histórias — e que a verdadeira beleza vem de respeitar essas raízes. Não se trata de um manual de regras, mas de uma prática gentil: comer bem, sem privação, e mover-se com assiduidade. Assim, a voz que embala gerações segue forte e luminosa, como um molho que apura seu sabor ao longo das horas.
Num mundo que força soluções rápidas, a cantora escolhe o tempo: porções que contam histórias, caminhadas que reconstroem memórias e o afeto da comida de família. E quando sobe ao palco para cantar um tema que marcou tantas tardes de infância, o público reconhece não apenas a artista, mas aquela que aprendeu a cultivar a própria vitalidade como quem guarda um tesouro — simples, essencial e profundamente humano.






















