Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura rotina e rito, Andrea Bocelli fez uma parada inesperada na Bassa Bergamasca antes de cumprir seu papel de superospite na noite decisiva do Festival de Sanremo. O tenor chegou a Spirano de helicóptero por volta das 11h para visitar o famoso ‘maneggio dos vip’ e encontrar um de seus cavalos — um encontro que, no fundo, parece mais um interlúdio cinematográfico do que uma simples logística pessoal.
Quem narra o episódio é Pasquale Beretta, figura de referência no mundo equestre italiano e dono do centro. “Somos amigos há muitos anos — conta Beretta — e a última vez que ele esteve aqui foi em janeiro.” A presença de Bocelli não estava prevista no roteiro público do dia, justamente por causa dos compromissos em Sanremo: uma participação que marca o retorno do tenor ao palco do Festival dos Fiori após sete anos, a convite de Carlo Conti para um tributo a Pippo Baudo.
O próprio artista revelou sua localização durante uma ligação ao vivo com Fiorello, no programa da RádioDue, mencionando inclusive uma parada para almoço em um restaurante da província. Mas foi Beretta quem detalhou a razão prática da visita: a chegada de Quarzo, um magnífico cavalo lusitano de seis anos que Bocelli havia adquirido três anos atrás e que estava na Espanha para concluir o treinamento de Alta Escola.
“Andrea chegou de helicóptero, estava muito concentrado para a noite em Sanremo, mas não resistiu quando soube que o Quarzo tinha chegado”, relata Beretta. Entre uma entrevista por telefone e outra, o tenor montou o cavalo e fez alguns arreios nos campos do centro equestre. Depois de um almoço com a equipe, voltou a seguir para a Riviera ligure de helicóptero, enquanto os preparativos eram finalizados para transportar Quarzo até a propriedade do artista na Toscana.
Há algo de exemplar nessa cena: o artista que cruza o espaço aéreo do cotidiano para manter um vínculo com uma paixão ancestral. Em tempos em que o entretenimento é frequentemente reduzido a flashes e manchetes, esse episódio funciona como um pequeno espelho do nosso tempo — onde a vida pública e os rituais privados se entrelaçam, dando forma a um roteiro oculto que revela preferências, memórias e afeto.
Mais do que anedota de bastidores, a visita reforça a imagem de Bocelli como figura cuja identidade transita entre palcos internacionais e a intimidade de campos e selas. O encontro com Quarzo não é apenas um cuidado prático com um animal valioso; é também uma pausa simbólica antes do grande espetáculo, um pequeno prólogo que ilumina a relação do artista com as raízes e com aquilo que resiste ao tempo — o que, ironicamente, é também o que sustenta sua voz no palco.
Enquanto os holofotes de Sanremo se preparavam para a noite final, o helicóptero que levou Bocelli a Spirano deixou no ar uma imagem potente: a de um artista que, mesmo no auge dos compromissos públicos, preserva espaços privados onde se reconhece e se recarrega. E, ao embarcar novamente, levava com ele não apenas a concentração para a apresentação, mas a confirmação de que algumas decisões — como a de cuidar de um cavalo — pertencem a outra ordem de prioridades.






















