Esta noite, Fabrizio Bosso sobe ao palco do Festival de Sanremo como convidado de Dargen D’Amico, ao lado de Pupo, para interpretar “Su di noi“. Nascido em Turim em 1973, Bosso é considerado hoje o melhor trompetista de jazz italiano — uma figura cujo sopro musical traça um roteiro oculto entre tradição erudita e improvisação popular.
A trajetória de Bosso é quase cinematográfica: começou a tocar aos cinco anos, incentivado pelo pai, Gianni, trompetista autodidata, e aos 15 anos já havia se diplomado no Conservatorio Giuseppe Verdi di Torino. A mãe, Marina, levava para casa os discos dos cantautores italianos, cenário onde o jovem Fabrizio experimentou suas primeiras improvisações — pequenos ensaios que, como takes sucessivos, iriam formar o seu estilo.
Ao longo da carreira, Bosso construiu uma filmografia sonora de colaborações com nomes diversos: de Stefano Di Battista e Paolo Fresu a figuras do pop e do rap como Frankie hi-nrg mc, além de participações com Claudio Baglioni, Mario Biondi e legados como Bruno Lauzi. Essa mistura de repertórios funciona como um refrão que atravessa gêneros, confirmando que o trompete de Bosso é também um instrumento de tradução cultural.
Sanremo e Bosso têm uma história longa: a participação de 2026 marca a sua sétima vez no palco do Ariston. Estreou em 2003 acompanhando Sergio Cammariere — colaboração que repetiu em 2008 — e retornou várias vezes ao festival: 2009 com Simona Molinari, 2011 ao lado de Raphael Gualazzi em “Follia d’Amore” (canção vencedora na categoria Giovani), 2012 com Nina Zilli e 2013 novamente com Gualazzi. Cada aparição no palco sanremês funciona como um espelho da cena musical italiana, refletindo (e por vezes antecipando) mudanças estéticas e afetivas.
Além do prestígio em festivais, Bosso mantém uma agenda intensa com concertos pela Itália e no exterior, movimentando audiências que transitam entre o público de jazz e os ouvintes do grande repertório popular. Sua presença em um ato com Dargen D’Amico e Pupo é sintomática: o encontro de linguagens revela o festival como um ponto de convergência — um palco onde memórias musicais e novos significados se ajustam como reflexos em uma tela.
Como analista cultural, vejo em Bosso mais do que um virtuoso: ele é uma ponte entre escolas, um tradutor de afetos que usa o trompete para compor uma semiótica do viral, um pequeno refrão que ressoa no tempo. Nesta edição de Sanremo, sua participação funciona como um reframing daquilo que consideramos pop e erudito — uma lembrança de que o entretenimento, ao fim, é sempre também desempenho de identidade e memória.
Após a noite no Ariston, Fabrizio Bosso seguirá para uma série de concertos, mantendo vivo o fio sonoro que o conecta tanto às raízes torinesas quanto ao circuito internacional. Seu retorno a Sanremo é, portanto, ao mesmo tempo um ato de reconhecimento e uma reafirmação cultural: o trompete como voz que narra, comenta e, sobretudo, traduz o espírito de seu tempo.






















