Por Chiara Lombardi — Em uma noite que parecia um espelho ampliado do próprio festival, a quarta serata di Sanremo revelou-se menos sobre competição e mais sobre fenômenos: a performance que dominou as conversas foi a de TonyPitony ao lado de Ditonellapiaga, um momento que acabou por eclipsar a concorrente em disputa e transformou o convidado num verdadeiro viral. Se o palco é uma câmara escura onde se projeta o roteiro oculto da sociedade, ali vimos um novo personagem ganhar contornos próprios.
Começando pela ordem: a apresentação de Leo Gassmann em dueto com Aiello sobre a canção de Cocciante teve seu brilho, mas a atenção foi desviada para a cena paralela — o pai do cantor, Alessandro Gassmann, que não poupou críticas a Gianni Morandi, acusando-o de favorecer o filho Pietro ao duetar com ele. Foi uma dessas investidas táticas que lembram os bastidores de um set de filmagem, onde alianças e ressentimentos se tornam parte do enredo.
O desafio de encarar o Luigi Tenco de “Mi sono innamorato di Te” caiu sobre Chiello, que optou por não trazer Morgan ao palco. A escolha deixou dúvidas: será que com o Bluevertigo o número teria outro peso? O certo é que, após uma participação pouco convincente na competição, a versão desta noite não reverteu a percepção.
Entre os mais comentados, o influenciador Vincenzo Schettini — envolto em acusações de ter pressionado estudantes a segui-lo online — passou por cima das controvérsias e entregou seu habitual espetáculo de lições “existenciais”. O público, no entanto, assistiu com a sensação de assistir a um personagem já conhecido do zeitgeist, cuja performance transcende o palco e dialoga com o cenário de transformação digital.
Luché escolheu um parceiro de viagem à altura: Gianluca Grignani. Enquanto o rapper imprimia sua cadência, Grignani pontuava com segurança, mas não resistiu e lançou uma provocação direcionada a Laura Pausini, pedindo em tom irônico se poderia usar o número dela nos arranjos florais — uma flecha que reacende antigas discussões entre artistas e críticas públicas.
O trio formado por Nayt e Joan Thiele enfrentou o desafio do repertório difícil de Fabrizio De André (“La Canzone dell’Amore perduto”) e saiu-se bem: uma interpretação que, ainda que menos vistosa do que em outras noites, mostrou traços de elegância e sobriedade.
Ermal Meta fez uma guinada estilística após apresentar uma canção de tonalidade balcanica e militante na competição: para a noite das cover, apostou em um repertório mais sofisticado com o piano de Dardust, e a alternativa funcionou, revelando outra camada do artista.
Em linhas mais leves, intérpretes como Levante, Michele Masini e Fedez encararam a obra de Gianna Nannini com uma sensibilidade inédita — versões mais delicadas de “Meravigliosa Creatura” que desafiam a ideia original e reconstroem a narrativa afetiva da canção.
Do universo neomelodico, Sal Da Vinci mudou o tom da noite ao assumir textura mais sanremense ao lado de Zarrillo, autor de “Cinque Giorni”; já Belen retornou com Samurai Jay após o percalço da primeira serata, mas, novamente, o microfone do convidado falhou — um daqueles pequenos acidentes de produção que lembram que o show, por baixo de todo o glamour, é ainda tecido por improvisos.
Por fim, a versão de Arisa para “Quello che le donne non dicono” de Ruggeri foi irrepreensível, um momento em que a performance encontrou o ponto de encontro entre interpretação e memória coletiva — como se, por alguns minutos, o palco fosse uma sala de cinema cheia de lembranças compartilhadas.
Ao final, o veredito da noite deixou claro um traço: em tempos onde o viral e o artístico frequentemente se entrelaçam, a eficácia de uma apresentação passa tanto pela potência simbólica do intérprete quanto pela capacidade de capturar a imaginação coletiva. TonyPitony, nesta equação, provou ser mais do que uma aparição — é um sinal dos tempos.






















