Por Chiara Lombardi — Em uma noite que se leu como um pequeno roteiro sobre visibilidade e performatividade, Levante e Gaia incendiaram o palco do Festival de Sanremo com uma leitura intensa de “I maschi“, de Gianna Nannini. A química entre as duas foi um fio narrativo durante toda a performance: olhares prolongados, aproximação vocal e corporal, até o abraço que culminou num beijo na boca — gesto que, todavia, não foi capturado em close pelas câmeras da transmissão.
O corte de câmera, que ampliou o campo poucos instantes antes do beijo, incendiou as redes sociais. Imediatamente, espectadores e comentaristas levantaram a hipótese de censura, interpretando a falta de enquadramento como uma decisão editorial que apagaria um gesto de afeto entre duas mulheres. O episódio, no entanto, ganhou outra versão vindo do diretor de transmissão, Maurizio Pagnussat, que disse ao Corriere: “Não se tratou de censura, foi apenas uma distracção minha” — e acrescentou em tom quase ligeiro que, ao menos, conseguiu pegar Raf em outro momento do programa.
A sequência depois da canção também teve seu ritual teatral. Ao voltarem ao palco, Laura Pausini provocou: “C’è amore qui?” — e Carlo Conti, num tom de leveza e autoparódia, brincou com a letra lembrando confusões de títulos anteriores: “Chiamo io o chiami tu?”. Gaia respondeu com espírito, fechando o momento em camaradagem e humor, mas o eco cultural do beijo não exibido permaneceu no ar, acionando debates sobre representação, normas televisivas e a sensibilidade de um público que hoje vigia cada frame como se fosse espelho de um tempo.
Enquanto parte da audiência questionava uma suposta política de ocultamento, a explicação técnica do diretor devolve a cena a uma dimensão menos conspiratória, mais humana: o operador que decide o enquadramento pode errar, distrair-se, perder o timing. Ainda assim, a reação pública revela algo mais profundo — que um beijo entre duas artistas num palco de grande audiência deixa de ser apenas um gesto íntimo para se transformar num signo público, um teste da própria narrativa do festival sobre inclusão e liberdade de expressões.
Nesta edição, o dueto também remete a uma tradição italiana de performances que ultrapassam o show e comentam a sociedade. Como crítica cultural, é impossível não notar a semiótica do episódio: o que foi cortado da tela fala tanto quanto o que ficou visível. O beijo de Levante e Gaia, mesmo fora do close, funciona como um refrão da noite — um eco que insiste em perguntar quem decide qual afeto merece ser mostrado.
Do ponto de vista prático, o festival seguiu sua programação: aplausos, interações entre artistas e a escaleta das apresentações que compõe a final. Politicamente, porém, a ocorrência deixou um rastro de discussão sobre a responsabilidade das emissoras na representação LGBTQ+ e sobre o papel do diretor de transmissão como curador involuntário de imagens.
Em tempos em que cada plano pode ser lido como manifesto, o episódio entre Levante e Gaia não é só um detalhe de palco — é um ponto de inflexão menor, mas significativo, no roteiro oculto da sociedade que se desenha ao vivo diante da Europa e do mundo.






















