Por Chiara Lombardi — Espresso Italia
Na noite de encerramento parcial do Festival, a quarta serata de Sanremo 2026 funcionou como um espelho do nosso tempo: mistura de nostalgia, experimentos fora do tom e performances que reescrevem pequenas memórias coletivas. Aqui, as minhas pagelle, com o olhar atento ao que cada escolha no palco diz sobre identidade e público.
Arisa — 7,5
Finalmente a intérprete encontra a canção certa. A leitura de Arisa foi uma aula de economia emocional: poucas palavras, grande carga afetiva. No roteiro oculto do festival, ela aparece como a protagonista de uma cena íntima em plena praça pública — e sai vencedora.
Cristina D’Avena — 4
O momento mais desconcertante da noite: a aparição de Cristina D’Avena cantando um trecho de Led Zeppelin soou para muitos como um reframe mal calculado da nostalgia. Se a intenção era chocar, o resultado foi uma desconexão com o tom do festival — uma espécie de contrassenso que mais afastou do que aproximou. Nota: 4.
Tommaso / Leo Gassmann com Aiello — 8
O dueto foi o ponto alto da noite. A colaboração entre Tommaso, Leo Gassmann e Aiello teve a densidade de um bom roteiro cinematográfico: tensões bem escritas, clímax controlado, e um final que permaneceu na cabeça. Performance musical que funciona tanto como ato artístico quanto como comentário sobre as alianças criativas dos novos tempos.
Siani — 5
O apresentador-ator quebrou alguns ritmos e acertou poucos golpes. A condução teve lampejos de humor, mas faltou continuidade e ritmo para manter o público inteiro dentro da narrativa da noite. Um desempenho mediano: 5.
Gianni Morandi e a polêmica com Alessandro Gassmann
Uma nota sobre os bastidores: Gianni Morandi apareceu em palco acompanhado do filho, numa imagem que joga direto na memória coletiva italiana — afeto público e tradição. Curiosamente, Alessandro Gassmann, que estava previsto para apresentar uma fiction, foi impedido de subir ao mesmo palco. Até o fechamento desta crónica não houve explicação pública consistente; por par condicio, a avaliação segue neutra, aguardando clareza.
Na balança desta quarta noite, o festival mostrou tanto o melhor da reinvenção — com duos que se convertem em pequenas obras — quanto o perigo do pastiche nostálgico mal calibrado. Sanremo 2026 continua sendo, apesar de tudo, o grande palco onde se lê o roteiro oculto da sociedade italiana: quem aposta no sentimento autêntico colhe atenção; quem força o choque, recebe críticas.
Para os próximos atos, vale observar duas frentes: a direcção artística — que precisa alinhar repertório e personagens — e a audiência, que cada vez mais busca coerência emocional nas performances. No fundo, o festival é sempre uma lente para entender como a cultura popular reescreve memórias e projeta novos símbolos.
Data: 27 de fevereiro de 2026






















