Por Chiara Lombardi — A música popular muitas vezes funciona como um espelho do nosso tempo: algumas vozes emergem e capturam a juventude, outras renascem e reescrevem a própria história. Hoje, esse espelho perdeu uma de suas faces mais reconhecíveis. Neil Sedaka morreu aos 86 anos, deixando um catálogo de canções que atravessaram gerações e geografias.
Em nota oficial, a família afirmou estar “devastada pela súbita perda de nosso amado marido, pai e avô, Neil Sedaka“. “Uma verdadeira lenda do rock and roll, inspiração para milhões, e sobretudo, para quem teve a sorte de conhecê-lo, um ser humano incrível cuja falta será profundamente sentida”, diz o comunicado.
Nascido no Brooklyn em 1939 e criado em Brighton Beach, Neil Sedaka começou a tocar piano após um professor identificar seu talento e pedir aos pais que comprassem um instrumento. Integrante do programa infantil da Juilliard, ele aprendeu cedo que a música poderia ser ao mesmo tempo refúgio e passaporte social — lembrava, em entrevistas, que escrevia canções para ser aceito em festas quando a vida escolar o excluía.
Compositor e cantor, Sedaka formou com o letrista e vizinho de infância Howard Greenfield uma parceria que sintetizou a inocência adolescente do pós-Elvis e pré-Beatles. Desses encontros nasceram clássicos como ‘Happy Birthday Sweet Sixteen’, ‘Calendar Girl’ e ‘Oh! Carol’ — este último um aceno autobiográfico à cantautora Carole King, por quem teve um relacionamento no colégio.
Seu primeiro êxito real foi ‘The Diary’, de 1958, que também lhe abriu portas na Itália. Embora associado à cena americana, Sedaka alcançou sucesso internacional, inclusive com versões em italiano de suas canções. Ele chegou a integrar o grupo The Tokens, famoso por gravar ‘The Lion Sleeps Tonight’.
Após um período de menor projeção, o compositor renasceu comercialmente nos anos 70 com faixas como ‘Laughter in the Rain’ e ‘Bad Blood’. Outra ironia do destino: a canção ‘Love Will Keep Us Together’, gravada por Captain & Tennille, alcançou o primeiro lugar em 1975, ampliando ainda mais a presença de suas composições nas paradas.
No total, Sedaka lançou mais de 25 álbuns de estúdio, foi indicado cinco vezes ao Grammy e entrou para a Songwriters Hall of Fame em 1983. Em 1978, recebeu uma estrela na Hollywood Walk of Fame e uma via em Brighton Beach foi rebatizada de “Neil Sedaka Way” em sua homenagem.
Casado com Leba Strassberg desde 1962, Sedaka deixa dois filhos, Dara e Marc. Sua trajetória é — e seguirá sendo — um roteiro sobre como a canção pop atua como repositório de memórias coletivas: hits aparentemente leves que, sob o verniz da melodia, guardam desejos de pertencimento, rupturas e nostalgia. A ausência de Neil Sedaka nos lembra do papel dos compositores como moldadores íntimos do imaginário sonoro do século XX e além.
Este texto será atualizado quando houver informações oficiais sobre cerimônia e homenagens.






















