Por Chiara Lombardi — Em um dos palcos que funcionam como espelho do nosso tempo, Bianca Balti voltou a subir as escadas do Festival de Sanremo com a elegância que conhecemos, mas agora carregando um roteiro pessoal mais complexo. Depois de enfrentar um câncer de ovário e a sequência de tratamentos, ela voltou — e desta vez com os cabelos crescidos, um novo corte que emoldurava os olhos e, visivelmente, uma cicatriz que não tentou esconder.
“Senti que representava algo a mais”, disse ela sobre a experiência de se expor publicamente durante a doença. O ano anterior, quando apareceu sem cabelo, já havia sido um gesto potente: oferecer à plateia e à televisão um corpo que rompe o glamour habitual. Agora, com a quimioterapia finalizada e os fios reaparecendo, Bianca descreve o processo seguinte — menos visível, mas igualmente profundo — de elaborar o luto da mulher que foi e que não voltará da mesma maneira.
É uma narrativa que desafia a ideia simplista de recuperação como retorno idílico ao status anterior. “Quando as pessoas veem os cabelos crescendo, pensam ‘agora ela está bem’ — e, muitas vezes, é quando começa o período mais difícil”, ela contou. A partir dessa observação, ela abriu uma janela para o que chamo de reframe da realidade: a cura física pode coincidir com um duelo íntimo, um processo de reescrita da identidade que não cabe em manchetes rápidas.
No palco, com um vestido que não tentou ocultar a marca no corpo, Bianca falou também do aspecto comunitário de sua jornada. A experiência com a doença aproximou-a de outras mulheres; algumas não resistiram. “Para nós que fomos doentes, a recidiva está sempre atrás da esquina”, afirmou, lembrando a fragilidade que ronda a vida compartilhada por muitas. A solidariedade entre mulheres, ali, surge menos como um slogan e mais como um exercício cotidiano: desaprender a rivalidade, praticar o cuidado coletivo.
Essa dimensão política e afetiva do gesto de Bianca — desfilar num evento-popular carregando sinais do tratamento — me parece um pequeno manifesto. Não é apenas moda; é semiótica do vivido. Como rosto de grifes como Dolce & Gabbana, Missoni e Lagerfeld, e a primeira italiana a pisar nas passarelas da Victoria’s Secret, Balti sabe manipular imagens. Mas aqui o espetáculo devolve o espelho: é a sociedade que a observa e, por meio dela, repara em suas próprias narrativas de medo, perda e reinvenção.
Há ainda uma camada pessoal que ilumina a trajetória: vinda de uma adolescência de resistência — morou como squatter na Bovisa, em Milão — e marcada por violência, um ataque sexual em um rave antes de ser descoberta por uma agência. Esses episódios não são apêndices sensacionalistas; são capítulos que ajudam a compor a complexidade de uma mulher que sempre foi, e continua sendo, maior que a etiqueta.
Com humor e leveza calculada, ela disse não ser fã de festas — “sou um pouco snob” —, mas confessou estar feliz em participar. No seu relato, a moda cede lugar à humanidade. O seu retorno a Sanremo é, portanto, tanto uma celebração quanto um convite: olhar para além das superfícies, reconhecer as cicatrizes como parte do roteiro, e fazer da visibilidade um ato de cuidado coletivo.
Em termos culturais, a presença de Bianca nesta edição do festival funciona como um pequeno corte no tecido narrativo do entretenimento: mostra que a celebridade pode ser também um canal para conversas difíceis — sobre saúde, luto, solidariedade — sem perder a sofisticação. É um renascimento que não promete restauração total, mas propõe uma nova autenticidade.






















