Por Chiara Lombardi — Em plena temporada do Festival, surge um espelho curioso do ecossistema midiático italiano: o Festival de Sanremo corre o risco de se transformar cada vez mais num verdadeiro festival empresarial da Rai. Mais do que um palco de canções, o evento funciona hoje como uma engrenagem financeira que ajuda a endireitar os números da emissora pública.
As estimativas — na falta de números oficiais — apontam para cerca de 75 milhões de euros em receitas publicitárias. Subtraídos pouco mais de 20 milhões de custos, sobra uma margem bruta superior a 50 milhões de euros para a Rai. É um modelo de autofinanciamento que transforma o espetáculo num instrumento corporativo: o festival torna-se, em essência, uma máquina de resultados.
Esse efeito se reflete também no domínio editorial. Quase todo o palinsesto diurno da emissora é monopolizado pela narrativa do festival: programas como “La volta buona” com Caterina Balivo, “BellaMa'” com Pierluigi Diaco e “La vita in diretta” com Alberto Matano vestem a cobertura com uma energia quase industrial. Em cena, uma verdadeira força-tarefa de enviados que mistura veteranos e perfis midiáticos, de Giuseppe Giofrè a Luca Tommassini, passando por Alba Parietti e outros colaboradores que ajudam a tecer o storytelling em torno do Ariston.
Até o noticiário se curva ao evento: o Tg1 despacha repórteres como Giorgia Cardinaletti — que acabou coapresentando a noite final — e os telejornais regionais transformam cada edição num inventário de “enfant du pays”, celebrando as origens geográficas dos intérpretes como se fossem troféus locais. O que temos, afinal, é um roteiro que reconstrói a comunidade nacional em pequenos excertos regionais.
Há, ainda, um capítulo sensível: o da circulação de nomes que evocam laços familiares no showbusiness. A acusação de nepotismo não é nova e se reproduz no line-up. Entre os nomes presentes figuram Tredici Pietro (filho de Gianni Morandi), LDA (filho de Gigi D’Alessio), Leo Gassmann (filho e neto de artistas). Anna Lou Castoldi, filha de Morgan e Asia Argento, apresenta conteúdo ligado ao evento na plataforma digital, enquanto Jolanda Renga — filha de Francesco Renga e Ambra Angiolini — participa de programas vespertinos. A sensação é de um elenco que, mais do que aleatório, segue laços de genealogia midiática.
O fenômeno provoca uma tensão interessante: por um lado, Sanremo continua sendo um ritual cívico-cultural com capacidade de unir audiências; por outro, corre o risco de perder parte de sua aura, reduzido ao papel de solução contábil e palanque corporativo. Se esse festival é também um espelho do nosso tempo, vemos nele o roteiro oculto de uma mídia que precisa equilibrar prestígio cultural e sustentabilidade financeira.
Por fim, sobra espaço para a ironia: entre quem brinca com a possibilidade de surgirem um “Megadiretor galáctico” ou uma “Contessa Serbelloni Mazzanti Vien dal Mare”, o que se impõe é uma pergunta mais séria — e menos jocosa: até que ponto um evento que define memórias coletivas deve ser instrumentalizado por necessidades empresariais? O Festival de Sanremo permanece um palco simbólico; resta saber que história vai escolher contar: a da canção popular ou a da pragmática engenharia corporativa.






















