Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia — Em um episódio que virou foco de discussão política e midiática, o letrista Mogol viu-se no centro de críticas após aceitar um traslado em um helicóptero de resgate dos Vigili del Fuoco do Festival de Sanremo para uma cerimônia em Roma. Aos quase 90 anos, Giulio Rapetti – nome civil do autor de sucessos que compõem boa parte da nossa memória musical – foi homenageado com um prêmio à carreira no palco do Ariston e, no dia seguinte, compareceu à celebração dos 87 anos do Corpo de Bombeiros no Teatro Argentina.
O uso do aparelho dos bombeiros despertou uma reação inesperada: questionamentos parlamentares, versões nas redes sobre “privilégios da casta” e críticas que, para o próprio artista, soaram desproporcionais. Em entrevista por telefone, em que se ouve ao fundo a presença de Daniela Gimmelli — identificada como sua companheira — Mogol diz estar turbado com o ruído gerado ao redor de um gesto que define como simples gentileza.
“Eu não esperava tanto alvoroço”, afirma. Segundo ele, a logística exigia presença em Roma “na primeira manhã” e, nas suas palavras, não seria possível conciliar os horários com um voo comercial saindo de Gênova. O letrista ressalta que sua participação na cerimônia não era de espectador, mas parte do evento — ele havia escrito um hino especialmente para os bombeiros e recebia também o título de vigile del fuoco ad honorem.
O tempo de deslocamento em helicóptero, acrescenta, foi “até menor” do que o de uma viagem por avión e deslocamento até o centro de Roma numa manhã de tráfego intenso — uma consideração prática que, na sua avaliação, torna a polêmica absurda. “Se eu tivesse de pegar um voo comercial, talvez teria perdido um dos prêmios. Teria sido um desperdício”, comentou.
Além de defender a regularidade do traslado, Mogol reagiu com indignação à crítica dirigida aos bombeiros. “Esse ataque a eles é nojento — são pessoas que colocam a vida em risco. Castigá-los por prestarem uma gentileza não é inteligente. Deveríamos dizer: obrigado, obrigado, obrigado.”
O artista também sugere que há um componente político na repercussão. “Penso que c’entra la politica”, afirmou em termos diretos, sugerindo que a situação tem sido instrumentalizada para atingir autoridades e provocar desgaste. A hipótese foi alimentada por uma interpelação parlamentar que questionou o uso do helicóptero, transformando um gesto logístico em tema de debate público.
Na leitura de quem observa a cena com o olhar da cidadania e da administração pública, a questão traz questões concretas: quando o uso de meios institucionais é justificável por razões de serviço ou segurança, e quando passa a ser percebido como uso indevido? Aqui, a arquitetura do debate público deveria pesar fatos e procedimentos, não apenas efeitos de imagem. No caso, as justificativas apresentadas por Mogol — estado avançado da idade, necessidade de presença no evento e o laço com o Corpo de Bombeiros — compõem um quadro que deveria ter sido avaliado com mais cuidado antes de virar tribunal midiático.
Ao fim, o autor mantém tom firme e contido: lamenta a exposição e defende o respeito institucional pelos bombeiros, apontando que a construção de direitos e de confiança entre instituições e cidadãos se faz com gestos recíprocos, não com acusações imediatas. “Fizeram de uma gentileza um escândalo. Parece mais uma obra de política do que de fiscalidade pública”, concluiu.






















