Por Marco Severini, Espresso Italia. Em Paris, enquanto o país ainda digere o assalto de alto impacto aos joias da Coroa no Louvre, outro episódio que corrói os alicerces simbólicos da República chega ao tribunal: o julgamento pelo furto de dezenas de peças de serviço do Palácio do Eliseu. O processo, instruído pelo tribunal de Paris, envolve três réus e pedidos de penas que podem chegar a oito meses de prisão, multas severas e a imposição de tornozeleira eletrônica. A sentença foi marcada para 16 de abril.
Os autos descrevem a trajetória de Thomas M., ex-responsável pela ourivesaria e pelotão de prataria do gabinete presidencial, que entre 2023 e 2025 retirou do Palácio itens de louça, talheres e cinzeiros avaliados, no conjunto, em cerca de €377.370. Entre os objetos subtraídos figuram peças de alto valor patrimonial: pratos de porcelana da histórica manufatura de Sèvres, xícaras, e taças de champanhe da cristalaria Baccarat utilizadas nas grandes ceias oficiais do Eliseu.
Em seu depoimento, o acusado admitiu ter levado «cerca de cem peças de porcelana», justificando inicialmente o gesto por uma veneração pessoal às louças: «era um grande apaixonado por este serviço», declarou. A narrativa converge, porém, para dificuldades econômicas no casal, que teriam transformado uma paixão particular em comércio ilegal. Seu companheiro, Damien G., antiquário de profissão, intermediou a saída das peças ao mercado — não pelos canais oficiais, mas por vias alternativas: vendas a colecionadores em grupos de redes sociais e transações privadas.
Relatos da instrução mencionam um comprador principal, identificado como Ghislain M., um colecionador residente em Versalhes e ex-guarda do Louvre, que adquiriu lotes das peças. Em dois anos de transações as margens foram modestas para os intermediários: cerca de €15.000, segundo os autos, um contraste nítido com o valor patrimonial estimado dos objetos.
Especialistas em cerâmica antiga, como Cyrille Froissart, reagiram com consternação: «É chocante — é nosso patrimônio comum», observou, lembrando que muitas dessas peças são intransacionáveis fora de canais oficiais, por carregarem numeração e o monograma do Palácio do Eliseu. Algumas raridades só puderam ser vendidas após manipulações sobre inventários e embalagens, ação que permitiu a saída das coleções sem detecção imediata.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento que embora menor que o grande assalto ao Louvre, revela fragilidades de segurança e controle dentro dos espaços de Estado — um erro tático no tabuleiro institucional. A cobrança judicial, pedida em forma de penas até oito meses de prisão, multas e tornozeleira eletrônica, busca restabelecer a ordem e dissuadir formas sutis de erosão patrimonial.
A sentença, marcada para 16 de abril, será um teste da capacidade do sistema jurídico em proteger bens culturais vinculados ao exercício do poder e em enviar uma mensagem clara: mesmo peças de mesa, quando pertencem à memória coletiva, compõem a arquitetura simbólica da nação.






















