Por Marco Severini, Espresso Italia — Nesta noite, Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, comparece perante a Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes para um interrogatório intenso sobre seus laços com Jeffrey Epstein, laços amplamente documentados nos arquivos recentemente divulgados. A sessão, marcada por cautela e tensão política, representa um movimento decisivo no tabuleiro da tectônica de poder em Washington.
Os nomes dos Clinton aparecem de forma recorrente nas revelações contidas nos chamados arquivos de Epstein. O ex-presidente tem mantido a narrativa de que encerrou qualquer relação com Epstein bem antes da condenação de 2008; contudo, a simples presença de um nome nos documentos não configura, por si só, prova de ilícito. Ainda assim, a presença de Bill Clinton diante da comissão reacende peças que estavam nas sombras do tabuleiro diplomático.
A audiência ocorre um dia após a oitiva de sua esposa, Hillary Clinton, ex-secretária de Estado. Em sua declaração inicial, ela afirmou não dispor de informações sobre as investigações envolvendo Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, e negou ter viajado no avião de Epstein ou visitado a ilha privada do financiador no Caribe. Ambos os depoimentos se realizam em Chappaqua, onde os Clinton residem.
Os republicanos, que controlam a comissão, conduzem a audiência em portas fechadas — ao contrário do pedido dos Clinton para sessões públicas e transmitidas. Na prática, este é um jogo de opacidade e controle de narrativa: fechar as portas do plenário é, simbolicamente, redesenhar fronteiras invisíveis entre o interesse público e os corredores de poder.
Bill Clinton admitiu ter usado, no início dos anos 2000, voos do avião de Epstein para ações humanitárias vinculadas à Clinton Foundation, mas negou categoricamente qualquer visita à ilha particular do financista e qualquer conduta imprópria. Não há acusações formais contra ele; o interrogatório, todavia, busca mapear a extensão das conexões entre Epstein e figuras influentes após a publicação de milhões de documentos pelo Departamento de Justiça.
Do lado político, os democratas acusam a investigação de ser instrumentalizada para atingir adversários de Donald Trump em vez de preservar uma apuração imparcial. Em sua fala, Hillary Clinton chegou a sugerir que, se a comissão deseja verdade plena, deveria convocar o próprio presidente Donald Trump a depor sob juramento, dado que seu nome aparece reiteradamente nos arquivos.
Os Clinton inicialmente resistiram às intimações, cedendo apenas após a ameaça republicana de sanções mais duras — um movimento que ilustra a coreografia dos interesses partidários. Em termos estratégicos, tratou-se de um lance calculado: aceitar depor em condição controlada para minimizar danos e preservar alicerces políticos.
Embora a audiência não decrete nenhuma culpa, ela modifica o mapa político: força atores a reposicionarem peças e deixa claro que os efeitos da divulgação dos arquivos de Epstein reverberam muito além do caso criminal, atingindo conexões internacionais, redes de influência e a própria arquitetura da confiança pública.
Como analista, observo que este episódio é menos uma jogada isolada do que parte de um redesenho mais amplo das fronteiras do poder em Washington — um movimento que combina investigação documental, estratégias partidárias e a inevitável disputa pela narrativa histórica. No tabuleiro, as próximas movimentações dependerão tanto dos documentos quanto da capacidade dos protagonistas em moldar a percepção pública e institucional.





















