Bill Clinton compareceu hoje perante a comissão de Vigilância da Câmara para prestar depoimento sobre seu relacionamento com o financista condenado por crimes sexuais, Jeffrey Epstein, encontrado morto em 2019. O ex-presidente chegou ao Performing Arts Center de Chappaqua, Nova Iorque, acompanhado de sua escolta, numa entrada que combinou discreção protocolar com a gravidade do momento.
O deputado republicano James Comer, antes do início da sessão, ressaltou a existência de fotografias e e-mails contidos em arquivos do Departamento de Justiça e disse esperar que a comissão continue a interrogar figuras influentes. “Há muitas fotos que foram tornadas públicas”, afirmou Comer, lembrando que o objetivo da investigação é esclarecer fatos. “Esperamos fazer como ontem e continuar a ouvir algumas das pessoas mais poderosas do mundo. Mais uma vez, ninguém está acusando ninguém de qualquer ilícito”, acrescentou.
O contexto procedimental incluiu menções à audiência anterior de Hillary Clinton, que, segundo relatos, durante seu depoimento de seis horas remeteu diversas perguntas ao marido. Parlamentares republicanos afirmaram que houve pelo menos uma dezena de ocasiões em que ela disse: “Vocês terão de perguntar ao meu marido; não posso responder”.
Na sua declaração de abertura, o ex-presidente afirmou não ter tido conhecimento dos crimes cometidos por Jeffrey Epstein. “Sei o que vi e, mais importante, o que não vi”, declarou Clinton. O ex-presidente advertiu que diria com frequência “não me lembro”: “Isso pode ser insatisfatório, mas não direi algo do qual não tenha certeza”, sustentou, sublinhando o limite imposto pelo juramento de não especular.
Clinton explicou que não seria útil tentar funcionar como um detetive “vinte e quatro anos depois” e que a sua estratégia de defesa é circunscrever as interações com Epstein ao início dos anos 2000 — cenário que sempre apresentou como o fim de qualquer relacionamento, bem antes das acusações e condenações que mais tarde marcaram o caso. A referência aos “24 anos” foi destacada como chave de sua linha defensiva: criar uma distância temporal que dilua conexão e responsabilidade.
Ao término da sessão, com a elegância contida que caracteriza sua comunicação pública, Clinton lançou a fórmula direta: “Com isto, prossigam” — uma licença retórica que sinaliza abertura para o interrogatório, mas também a contenção cuidadosamente ensaiada de sua defesa.
Diferentemente de episódios partidarizados, o ex-presidente não invocou o nome de Donald Trump nem solicitou a convocação de outras personalidades. As reações do entorno político foram contidas: o atual inquilino da Casa Branca declarou, em tom seco, que “não tem prazer em ver Bill Clinton sendo interrogado” pela comissão especial.
Do ponto de vista estratégico, a manobra de memória controlada e o enquadramento temporal configuram um movimento clássico no tabuleiro político: deslocar o foco para um perímetro cronológico que reduz adversidades evidenciais e impõe ao inquiridor o ônus de ligar pontos dispersos por décadas. Em termos de diplomacia e estabilidade institucional, trata-se de um esforço para preservar alicerces frágeis da reputação pública sem, contudo, entrar em confronto aberto com as dinâmicas do processo investigativo — um equilíbrio que reflete a tectônica de poder entre instituições, mídia e legado pessoal.





















