Por Marco Severini — Em declaração incisiva após os ataques coordenados de Washington e Tel Aviv contra Teerã, o presidente Donald Trump afirmou: “Destruir-emos os seus mísseis, reduziremos ao chão a sua indústria mísseis. Aniquilaremos a sua Marinha”. Acrescentou que fará com que os grupos armados filo-iranianos “não possam mais desestabilizar a região ou o mundo e atacar as nossas forças”.
Por trás desse vernáculo beligerante há menos retórica de ocasião e mais um movimento calculado no tabuleiro: a preocupação com uma guerra de sombras entre Estados Unidos e Israel, por um lado, e o Irã, por outro, centrada num corredor marítimo cuja importância geopolítica raramente recebe o mesmo destaque midiático — o Estreito de Hormuz.
O poder de disrupção desse estreito é claro. Com cerca de cinquenta quilômetros de largura no seu ponto mais estreito, o Estreito de Hormuz liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e permite ao regime iraniano, se assim o desejar, interferir de modo direto no tráfego marítimo. Estatisticamente, algo em torno de 30% do petróleo transportado por mar — equivalente a um quinto da produção petrolífera mundial — passa por ali. Além disso, cerca de 20% das remessas de GNL seguem a mesma rota, fator que se intensificou após a guerra na Ucrânia e a redução das exportações russas.
Neutralizar a capacidade iraniana de bloquear o estreito implica atacar precisamente dois alicerces: a Marinha iraniana e a sua indústria de mísseis. Num único golpe, a intenção declarada da Casa Branca visa retirar de Teerã a possibilidade operacional de fechar o canal e, com isso, evitar um choque severo nos mercados energéticos e nas cadeias logísticas globais.
É necessário, porém, ler essa retórica com a cautela de um diplomata que conhece o tabuleiro. Anular a capacidade naval e balística iraniana reduziria drasticamente o risco imediato de interdição marítima, mas acarretaria custos estratégicos e humanos elevados. Para o Irã, fechar o estreito seria autoinfligir um dano económico profundo — a própria sobrevivência fiscal do regime depende, em grande medida, do transporte de hidrocarbonetos —, mas a opção de provocação permanece como instrumento de pressão política e militar.
Geopoliticamente, o Golfo Pérsico separa o Irã das monarquias do Golfo, onde permanecem bases e interesses norte-americanos, e concentra algumas das maiores reservas energéticas do planeta. Controlar ou negar o controle do estreito é, portanto, disputar um nó crítico da economia global. Em média, mais de 20 milhões de barris transitam pela passagem diariamente; é esse fluxo que qualquer decisor ocidental pretende preservar a todo custo.
Da perspectiva da Tectônica de poder, o aviso de “aniquilar a Marinha” funciona como sinal: Washington pretende estabelecer um limiar claro — a tentativa de fechar o estreito será interpretada como ato de guerra em larga escala — e está disposto a degradar a capacidade iraniana para garantir a liberdade de navegação.
Mas no xeque-mate estratégico não existem jogadas fáceis. Um ataque sistemático contra a indústria mísseis iraniana e suas plataformas navais poderia desencadear uma escalada regional, acionar redes de aliados e proxies e provocar rupturas no fluxo de energia com repercussões globais. Assim, a decisão final é mais do que militar: é uma escolha sobre quais alicerces da diplomacia internacional permanecerão de pé.
Em resumo: a declaração de Trump é tanto uma advertência operacional quanto um movimento simbólico no grande tabuleiro do Oriente Médio. O objetivo declarado é claro — preservar o livre trânsito do petróleo e do GNL —, mas os meios para alcançá-lo estão inseridos numa arquitetura de riscos que exigirá pragmatismo e cálculo cuidadoso por parte dos atores envolvidos.





















