Por Chiara Lombardi — A quarta noite do Sanremo 2026 desenhou-se como um pequeno épico dentro do grande espetáculo: uma mistura de nostalgia, experimentação e algumas faíscas de controvérsia. No centro desse panorama, Ditonellapiaga emergiu como a indiscutível regina das cover, conquistando o primeiro lugar na classificação da noite dedicada às reinterpretações — uma vitória que funciona como um espelho do tempo, revelando como o presente reescreve os cânones do passado.
A lista das dez melhores performances da noite ficou assim ordenada: Ditonellapiaga, Sayf, Arisa, Bambole di Pezza, Tredici Pietro, Sal Da Vinci, LDA & Aka 7even, Nayt, Dargen D’Amico e Luchè. Importante frisar que esse resultado foi formado pela combinação de televoto, sala de imprensa, TV e web, e a juria das rádios — e não altera a classificação final do festival, que será decidida na final de sábado.
Uma das imagens que ficará na memória foi a surpresa de Gianni Morandi subindo ao palco com o filho Tredici Pietro, um encontro que trazia camadas de nostalgia e contemporaneidade. No palco do Ariston, essa aparição funcionou como um pequeno reframe da história do festival: o roteiro oculto da música italiana que passa de geração a geração, às vezes de forma literal.
Visualmente, a noite também teve seu momento cinematográfico: a modelo Bianca Balti trouxe luz e presença, enquanto Laura Pausini assumiu um papel quase performativo — de óculos tipo máscara e longas luvas fúcsia — para entoar um medley que elevou a temperatura emocional da plateia. São imagens que não decorrem apenas da estética, mas contam uma narrativa sobre identidade e espetáculo.
Nem tudo, porém, foi aplauso. Ao ser anunciada em terceiro lugar, Arisa, que interpretou “Quello che le donne non dicono”, recebeu vaias da plateia — um sinal de que o público do Ariston ainda opera como uma plateia crítica, disposta a reagir quando o veredito oficial parece destoar do sentimento coletivo. Outro resultado surpreendente foi a ausência de Fedez e Marco Masini entre os dez primeiros, após sua leitura de “Meravigliosa creatura” de Gianna Nannini.
Ao todo, os 30 big do festival passaram pelo palco em dueto, acompanhados por convidados variados: músicos, atores, jornalistas e nomes históricos. Foi uma edição que, na sua extensa programação — que se estendeu até 1h30 da madrugada —, reafirmou o festival como um laboratório performativo onde o passado é constantemente reavaliado.
Sobre o sistema de votação: o peso foi dividido entre Televoto (34%), Sala de Imprensa, TV e Web (33%) e Júri das Rádios (33%). A soma desses elementos definiu o ranking da noite e elegeu um vencedor para a competição das covers — um resultado paralelo que, apesar de simbólico, não mexe na corrida principal pelo troféu da 76ª edição.
Se o Sanremo 2026 é um reflexo do zeitgeist cultural, a noite de covers foi a sua câmara escura: projetou, em negativo e positivo, a maneira como artistas contemporâneos reinterpretam canções que já fazem parte da memória coletiva. A disputa pela final, marcada para sábado, promete encerrar este capítulo com um desfecho que, certamente, continuará sendo lido e reletrado por críticos e espectadores como um índice dos tempos.






















