Assinada por Chiara Lombardi para Espresso Italia — A noite das cover em Sanremo 2026 entregou algo além de nostalgia: foi um espelho do nosso tempo, onde regravações funcionaram como pequenos roteiros que reframeiam memórias coletivas. Abaixo, a top ten da quarta noite do Festival, decidida pelo público (Televoto), pela Giuria della Sala Stampa, Tv e Web e pela Giuria delle Radio.
- Ditonellapiaga com Toni Pitony — “The Lady is a Tramp”
- Sayf com Alex Britti e Mario Biondi — “Hit the Road Jack”
- Arisa com Coro del Teatro Regio di Parma — “Quello che le donne non dicono”
- Bambole di Pezza com Cristina D’Avena — “Occhi di gatto”
- Tredici Pietro com Gianni Morandi, Galeffi, Fudasca & Band — “Vita”
- Sal Da Vinci com Michele Zarrillo — “Cinque giorni”
- LDA & Aka 7even com Tullio De Piscopo — “Andamento lento”
- Nayt com Joan Thiele — “La canzone dell’amore perduto”
- Dargen D’Amico com Pupo e Fabrizio Bosso — “Su di noi”
- Luchè com Gianluca Grignani — “Falco a metà”
O primeiro lugar de Ditonellapiaga, ao lado de Toni Pitony, com um clássico do repertório jazz/standards, mostra como o Festival ainda celebra a elasticidade do canção: uma faixa que nasceu como número de cabaré pode, na interpretação certa, virar um espelho crítico da atualidade. É a semiótica do viral aplicada ao repertório canônico.
Sayf, ao dividir o palco com a elegância de Alex Britti e a voz aveludada de Mario Biondi, transformou “Hit the Road Jack” em um diálogo de gerações e timbres — um pequeno reframe que valoriza a convivência entre tradição e modernidade.
Arisa, acompanhada pelo Coro del Teatro Regio di Parma, resgatou a intimidade de “Quello che le donne non dicono”, uma canção que já pertence ao imaginário italiano. A escolha de um coro erudito devolve à faixa uma dimensão dramática e quase operística, como se o Festival abrisse uma janela para a memória coletiva.
Chamo atenção também para a nostalgia pop de Bambole di Pezza com Cristina D’Avena em “Occhi di gatto”: é o encontro entre o desenho animado e a circulação adulta da memória afetiva — o clássico encontro entre infância e consumo cultural.
Da colaboração entre Tredici Pietro e ícones como Gianni Morandi até o groove de LDA & Aka 7even com Tullio De Piscopo, a noite expôs uma estratégia clara: cores distintas do mesmo panorama pop, costuradas por arranjos que procuram tanto o respeito ao original quanto a legitimidade contemporânea.
Por fim, vale lembrar que a votação combinada (Televoto, Sala Stampa/Tv/Web e Radio) cria um mapa plural das preferências: um roteiro oculto entre audiência e crítica. A noite das cover não é só homenagem — é também um dispositivo que revela tendências, alianças sonoras e a capacidade do Festival de persistir como palco de reinterpretação cultural.
Seguimos atentos ao que esse resultado antecipa para as noites finais: quem souber transformar memória em novidade terá vantagem não só nas paradas, mas no eco cultural que perdurará além do palco.
Chiara Lombardi — Espresso Italia






















