Duas fortes explosões foram ouvidas esta manhã em Jalalabad, província de Nangarhar, no leste do Afeganistão, território sob controle dos talibãs desde 2021. O relato foi confirmado por um jornalista da agência AFP no local, no que configura um novo capítulo da crescente escalada entre Afeganistão e Paquistão.
Segundo o repórter, antes das detonações foi possível distinguir o ruído de um caça; as explosões pareceram originar-se na direção do aeroporto de Jalalabad. Ainda é prematuro estabelecer a total natureza dos alvos e as consequências em termos de vítimas, mas a ocorrência intensifica um quadro já delicado na fronteira e na diplomacia regional.
Em Washington, o Departamento de Estado declarou seu apoio ao “direito do Paquistão a se defender” contra ataques atribuídos aos talibãs, classificando o grupo como uma organização terrorista de alcance global. O porta-voz acrescentou que os Estados Unidos acompanham a escalada das tensões “entre o Paquistão e os talibãs afegãos” e reiterou críticas ao não cumprimento, por parte dos talibãs, de compromissos antiterrorismo.
O governo paquistanês afirma que suas forças eliminaram “297 combatentes talibãs afegãos” e também membros do movimento talibã paquistanês (TTP) nos confrontos transfronteiriços. Islamabad tem exigido que as autoridades em Cabul ponham fim à impunidade de grupos que usam o território afegão como base para ações contra o Paquistão, citando termos específicos, como Fitna al-Hindustan — rótulo usado para grupos no Baluchistão — e Fitna al-Khawarij, expressão aplicada pelo Paquistão a combatentes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP).
A presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Mirjana Spoljaric, fez um apelo público à “distensão”, alertando que nenhuma resposta humanitária substitui a vontade política de respeitar as regras de conflito e priorizar a redução das hostilidades. As palavras da líder do CICV soam como advertência sobre a fragilidade dos alicerces humanitários numa região onde o barulho das armas tende a redesenhar fronteiras invisíveis e deslocar populações.
O Ministério das Relações Exteriores de Islamabad declarou que o Paquistão exerceu seu direito de autodefesa face às provocações armadas vindas das forças afegãs, e formalizou a posição do governo de combater o que chama de ameaça terrorista emergente do território vizinho. Essas mensagens públicas compõem, nas minhas leituras de diplomata estratégico, um movimento decisivo no tabuleiro da tectônica de poder regional: o Paquistão busca projetar capacidade de retaliação e dissuasão; o Afeganistão, sob administração talibã, enfrenta o dilema de controlar milícias e manter alguma legitimidade internacional.
As implicações são múltiplas. Uma escalada sustentada poderia transformar pontos de fronteira em corredores de conflito, pressionando rotas humanitárias e ampliando a presença de atores regionais e extrarregionais. O apoio explícito dos Estados Unidos ao “direito de defesa” de Islamabad dá um componente internacional ao conflito, sem, porém, oferecer uma via imediata para redução das tensões. Em termos estratégicos, observamos os alicerces frágeis da diplomacia — onde um erro de cálculo pode provocar um redesenho de influência mais amplo, como num jogo de xadrez em que peças menores abrem caminhos para movimentos decisivos.
Enquanto as informações no terreno se completam, a prioridade humanitária e a necessidade de canais de desescalada permanecem evidentes: uma pausa nas hostilidades, fiscalização independente das alegações de mortos e feridos e negociações discretas para restaurar limites minimamente estabilizados na fronteira.






















