Por Chiara Lombardi — No grande palco do Teatro Ariston, a Sanremo 2026 transformou sua serata cover em um espelho do nosso tempo: uma noite onde memória, reinvenção e emoção se entrelaçaram como num roteiro cuidadosamente encenado. Em segundo lugar no pódio ficou Sayf com uma versão de Hit The Road Jack, eternizada por Ray Charles, acompanhado por Alex Britti e Mario Biondi em uma leitura à moda Blues Brothers. A terceira posição coube a Arisa, que apresentou Quello che le donne non dicono, hino associado a Fiorella Mannoia, em interpretação coral com o Coro do Teatro Regio de Parma.
A abertura da noite ficou por conta de um set de grande impacto de Laura Pausini, cuja presença reafirma a capacidade do festival de convocar a grande narrativa da música italiana. Ao seu lado no palco, a co-apresentadora Bianca Balti voltou à cena do Ariston com uma fala que tocou o íntimo do público: “O último ano foi o mais duro da minha vida, depois do fim da quimioterapia tive que elaborar o luto daquela mulher que eu era e que não existirá mais”. A declaração se inseriu no roteiro não só como testemunho pessoal, mas como parte do eco cultural que Sanremo projeta sobre temas sociais e humanos.
Em números, a noite dedicada aos covers alcançou um impressionante share de 65,6%, registrando o quarto melhor resultado para a quarta serata desde 1995 — ano em que Pippo Baudo levou a marca a 65,8%. Ainda assim, houve uma leve queda em relação às últimas três edições recorde: o pico absoluto permanece com o festival conduzido por Carlo Conti em 2025 (70,8%), seguido por Amadeus em 2024 (67,8%) e 2023 (66,5%). Em termos de audiência total, a serata cover obteve média de 10.789.000 espectadores na Rai1, reafirmando a dimensão popular e o apelo transgeracional do evento.
No horizonte imediato, sábado 28 de fevereiro reserva o gran finale da 76ª edição. No palco, ao lado de Carlo Conti e Laura Pausini, estará a co-condutora Giorgia Cardinaletti, rosto consagrado do Tg1, e o superospite da noite será Andrea Bocelli. A volta de Bocelli ao festival, sete anos após sua última aparição, funciona como um fechamento simbólico do tributo a Pippo Baudo — foi ele, com Caterina Caselli, quem primeiro acreditou no jovem tenor toscano, apresentando-o ao palco de Sanremo e iniciando uma carreira que se transformou em fenômeno global. Difícil não evocar Con te partirò, apresentada em Sanremo em 1995 e hoje parte do repertório afetivo da Itália no mundo.
Além do peso simbólico, Bocelli chega com marcos concretos: participação representativa nos Jogos de Milano Cortina 2026 e três décadas de Romanza, álbum que ultrapassou 20 milhões de cópias, consolidando-se entre os discos italianos de maior impacto global.
Regressa ao palco a galeria dos 30 concorrentes em competição. O sistema de votação segue distribuído entre Televoto (34%), a Giuria della Sala Stampa, Tv e Web (33%) e a Giuria delle Radio (33%). As cinco primeiras canções são anunciadas sem ordem de classificação e seus resultados são somados às votações das noites anteriores — um mecanismo que cria tensão e reframe constante da corrida pelo título. As cinco finalistas voltam a se apresentar e são votadas novamente; a soma final define o vencedor da edição 2026. Na arena externa, em Piazza Colombo, os Pooh celebram 60 anos de música, um lembrete de que Sanremo continua a ser também palco de festivais de memória coletiva.
Enquanto as luzes do Ariston se apagam nesta etapa, permanece a sensação de que a Sanremo 2026 não é apenas um show; é um espelho em que nossa cultura pop se reconhece, revisita e, por vezes, se transforma. A serata cover foi mais uma peça desse roteiro oculto que liga passado e presente — e aponta, no fim, para o porquê continuamos a assistir.






















