Andrea Bocelli em Sanremo 2026: “Tudo começou aqui”
Por Chiara Lombardi — Como se o palco fosse um espelho do nosso tempo, Sanremo volta a refletir não só canções, mas trajetórias. Na noite final, o convidado especial será Andrea Bocelli, que recorda: “Faz 30 anos desde a primeira vez que pisei neste palco, quando oficialmente começou minha carreira”. Há nesta declaração a cadência de um roteiro revelador: o momento em que o íntimo encontra o público e transforma-se em destino.
Bocelli, sempre com a elegância de quem recorta memórias como frames de um filme, evita o rótulo de “superospite”. “Não me sinto nada ‘superospite’”, diz, remetendo o foco para as lembranças mais simples e determinantes: a presença dos pais na plateia do Ariston. Ele descreve a cena com uma pincelada quase pictórica — o pai com as costas apoiadas na parede, reservado; a mãe vibrante, na primeira fila ao lado de Gino Latilla. Essa imagem funciona como um reframe da origem: a raiz campesina e a educação sentimental que moldaram sua voz e sua presença.
Para Bocelli, aquele dia em Sanremo foi um ponto de inflexão. “Minhas raízes estão aqui. Sou muito ligado a este palco, aqui começou oficialmente minha carreira”. Mas ele lembra que a música já fazia parte de sua narrativa desde a infância, com passagens por pianobares e conselhos alheios: “Me diziam: ‘Você deveria ir a Sanremo!’ e eu respondia: ‘Já fui com meus pais, nas férias’”. O destino, entretanto, tinha outros planos: ele veio e tudo começou.
A conversa também se volta à família: Matteo e Virginia seguem os traços do pai, mas Andrea pondera antes de encorajá-los a buscar o mesmo palco. “Depende: se fosse o Matteo, eu diria vá, ele tem quase 28 anos; se fosse a Virginia, diria vá estudar antes de Sanremo”. Sobre um possível dueto com o filho, sua resposta é prática e afetiva: dependeria da qualidade da canção — mas, em princípio, ele não recusaria.
No evento da Festa di Romanella, Bocelli definiu em tom quase dantesco o fluxo do sucesso: citou “Vuolsi così colà dove si puote…” para explicar que a sua ascensão chegou no tempo certo. “A realidade superou todos os sonhos que eu poderia ter. Minha maior aspiração talvez fosse apenas ir a Sanremo. Nunca imaginei tudo o que viria depois. Na vida não se deve dar nada como certo”.
Também foi apresentado em primeira mundial o film-concerto “Andrea Bocelli30: The Celebration”, dirigido por Sam Wrench, que documenta os três espetáculos realizados no Teatro del Silenzio, em Lajatico, nos dias 15, 17 e 19 de julho de 2024. O registro reúne cronologia de noites, encontros e duetos memoráveis, com participações de nomes como Ed Sheeran, Brian May, Jon Batiste, Russell Crowe, Johnny Depp, Plácido Domingo, José Carreras, Lang Lang, Zucchero, Elisa, Laura Pausini, Tiziano Ferro, Giorgia, Sofia Carson, Matteo e Virginia Bocelli, Sofia Vergara, e até as irmãs Kardashian — sem esquecer estrelas da música clássica como Aida Garifullina, Bryn Terfel e Nadine Sierra.
Esta história de três décadas é, portanto, mais que um currículo: é um espelho cultural. O percurso de Bocelli traduz o roteiro oculto da sociedade — como a arte transforma circunstância em legado. Sua família, de origens camponesas, mantém a metáfora de solo fértil que sustenta a árvore do seu sucesso. E no Ariston, ao reverenciar o passado, celebrou-se também a continuidade de uma voz que faz da linguagem musical um mapa íntimo e coletivo.






















