Na noite decisiva do Festival de Sanremo 2026, o palco se prepara para um encontro que é, ao mesmo tempo, reencontro e confirmação de uma tradição televisiva: Nino Frassica retorna para dividir a condução com Carlo Conti e Laura Pausini, prometendo intercalar as apresentações musicais com sua marca registrada de ironia.
“Nasci assim, então era lógico que antes ou depois iriam me chamar para apresentar o Festival”, brincou o comediante siciliano, numa declaração que funciona como síntese da sua carreira — uma mistura de absurdo, jogo de palavras improbáveis, frases lapalissianas e aquele discurso aparentemente sem nexo que, curiosamente, sempre diz algo sobre nós. Em outras palavras: Frassica não é apenas um intérprete do nonsense; é um espelho cênico do nosso tempo.
Nino Frassica, cujo nome real é Antonino, nasceu em Messina em 11 de dezembro de 1950 e, aos 75 anos, carrega uma trajetória que atravessa teatro, rádio e televisão. Sua carreira começou em 1970 com o grupo teatral “I cantatori pelosi figli della cantatrice calva”, homenagem à peça do dramaturgo Eugène Ionesco — um primeiro sinal de que o absurdo e a ruptura com o trivial seriam orientadores estéticos permanentes.
O grande público descobriu Frassica nos anos 1980 graças à colaboração com Renzo Arbore: foram papéis memoráveis, do técnico da Tele Ottaviano em FF.SS. ao frade Antonino em Quelli della notte, culminando no icônico “bravo presentatore” de Indietro tutta! (1987-88). A televisão permaneceu o palco preferido do artista, com participações em programas como Fantastico, Domenica in, I migliori anni e Che fuori tempo che fa.
Desde 2000, Frassica também conquistou novas gerações ao interpretar o maresciallo Nino Cecchini ao lado de Terence Hill na série Don Matteo, um papel que ampliou sua presença na memória afetiva coletiva: é a imagem de um personagem que atravessa a comédia e a confiança institucional, um equilíbrio frágil entre riso e identificação.
Paralelamente à televisão, sua voz ecoou nas ondas do rádio — entre elas Radio2 – Meno male che c’è — e em colaborações musicais com grupos como Le Carogne e Los Plaggers. Essa trajetória interdisciplinar explica por que sua participação em Sanremo funciona como um refrão cultural: ele reaparece para recolocar o riso no centro do espetáculo, lembrando que o entretenimento é, sempre, um roteiro oculto da sociedade.
Na final do Festival, a expectativa é por intervenções que acuem a formalidade do show e convidem o público a uma autoinspeção bem-humorada — o tipo de gesto que transforma uma apresentação noturna em um pequeno diagnóstico do zeitgeist. Em cena, a presença de Nino Frassica junto a Carlo Conti e Laura Pausini pinta um quadro onde música, memória e ironia compõem a trilha sonora de um momento cultural que vale observar com atenção.






















